Introdução
A disputa
sobre se é correto ou não batizar bebês não é tão longa quanto pensamos. Até
onde podemos saber historicamente, a igreja primitiva batizava seus bebês. Que
um ou outro cristão possa ter torcido o nariz a respeito do assunto ao longo da
história não há dúvidas. Poucos assuntos podem se gabar – ou se envergonhar – de
nunca ter causado uma discussão. A questão se tornou mais importante em tempos
de reforma protestante. Quando tudo começou a ser reformado, os sacramentos não
passaram despercebidos. E, honestamente, eles estiveram muito próximos do centro
de quase todas as controvérsias, não só entre protestantes e católicos como também
entre protestantes e protestantes.
No
evangelicalismo moderno, as duas posições convivem com mais ou menos respeito e
tolerância mútuos. Pedobatistas (os que batizam bebês) e batistas (os que não batizam
bebês) conseguem evangelizar juntos, tomar ceia juntos, se convidar reciprocamente
para pregar em suas igrejas e até labutar juntos no pastorado da mesma igreja
local. O evangelicalismo tem seus momentos!
O que eu
gostaria de tratar neste artigo é a razão por que eu sou pedobatista e a razão
por que isso é importante.
Por que pedobatismo?
A questão,
como se costuma dizer, quase nunca é a questão. Ou, numa outra versão, o
problema quase nunca é o problema. Aqui não é diferente. Batizar ou não o bebê
não é a questão, ou o problema. A verdadeira questão é se devemos considerar
como cristãos os filhos de cristãos.
Bebês de
Deus ou do Diabo
Se não
pudermos dizer que os bebês filhos de cristãos são cristãos, também teremos de dizer
que qualquer bebê será sempre pagão, ou, em outras palavras, para destacar o
absurdo da conclusão, teremos de dizer que nunca houve um bebê sequer na história
que fosse cristão, exceto, talvez, o Cristo.
Teremos de
dizer que o cristianismo é uma religião só para adultos e que a autoridade de
Cristo sobre os bebês é meramente programática, isto é, a autoridade de Cristo
se limita a planejar o futuro dos bebês quando, depois de alguma idade não
determinada biblicamente, eles poderão ser Dele. Até que esse momento chegue,
eles devem ser do Diabo?
Mas se isso
parecer absurdo, o que com certeza parece, já que não se nos mostra que esses
seres pequenos, desdentados, chorões e adoráveis são, todos eles, do Diabo,
então, teremos de admitir o oposto, ou seja, que é possível haver bebês
cristãos.
Bebês
cristãos
Paulo parece
entender que há, na verdade, bebês cristãos:
I Coríntios
7.14 - Porque o marido descrente é santificado pela mulher; e a mulher
descrente é santificada pelo marido; de outra sorte os vossos filhos seriam
imundos; mas agora são santos.
Os filhos
dos crentes são santos, não imundos. Mesmo no caso em que apenas um dos pais é
crente, isso não afeta o estado dos filhos, pois o cônjuge crente “santifica” o
cônjuge descrente.
Cristãos
devem ser batizados
Todo cristão
deve ser batizado. É uma ordem do Senhor que os discípulos sejam batizados (Mt
28.19) e é uma ordem do Senhor que os que creem sejam batizados (Mc 16.16) e é
absolutamente lícito que os crentes sejam batizados (At 8.37). Paulo considera
que a fé dos pais santifica seus filhos, o que significa que a manifestação de
fé dos pais supre a falta de linguagem dos filhos (I Co 7.14), e não podemos
negar que Jesus disse – sim, o próprio Senhor Jesus Cristo disse – que Deus
suscitou o perfeito louvor da boca dos pequeninos e dos que mamam (Mt 21.16).
Não podemos
negar o batismo a um cristão. Como disse o Eunuco: que me impede de ser
batizado? (At 8.36) Se os bebês filhos de crentes são cristãos, que os impede
de ser batizados? Ou quem os impede de ser batizados?
Bebês tem
de ser batizados
Bebês não
apenas podem ser batizados. Eles devem ser batizados. Privá-los do batismo é
privá-los de algo que Deus deu a todos os cristãos.
O batismo é
um meio da graça. Gálatas 3:27 - Porque todos quantos fostes batizados em
Cristo já vos revestistes de Cristo.
Jesus disse:
deixai vir a mim os pequeninos, não os impeçais, pois dos tais é o reino de
Deus (Mc 10.14; Lc 18.16). Se dos tais é o reino de Deus, por que deveriam os
tais ser privados de um dos meios da graça?
Por que isso
importa?
Agora
podemos entrar na segunda questão: por qual razão o pedobatismo seria um
assunto importante? Se bebês não podem ser batizados por serem bebês, na
verdade, ninguém mais pode justamente por não ser um bebê. Deles é o reino de
Deus, Deus suscitou neles o perfeito louvor, ninguém deve se interpor entre
eles e Deus. Se mesmo assim eles não puderem ser batizados, que se dirá
daqueles de quem não se disse serem herdeiros do reino de Deus e que não dão
louvor perfeito ao Criador?
E em que
sentido negar um meio da graça prometido por Deus aos seus herdeiros não é se
interpor entre as crianças e Deus? Em que sentido impedir que elas se aproximem
do batismo de Cristo não é impedir que elas se aproximem de Cristo? São
perguntas que merecem uma reflexão. A mera negação não resolve o problema.
Crescendo
com uma mentira
Se a Bíblia
realmente diz o que ela diz, isto é, que os filhos de crentes são santos, que
eles são herdeiros do reino e que Deus suscita neles o perfeito louvor, então,
dizer ao seu filho – caso você se trate de um cristão – que ele não é cristão é
mentir pra ele e excluí-lo da mesa da família da qual ele, na verdade, faz
parte e à qual ele tem tanto ou mais direito quanto todos os adultos.
Uma religião
de crianças
O
cristianismo não é uma religião só para adultos. É uma religião de adultos, de idosos,
de crianças, de bebês, de pequeninos. E, embora devamos amadurecer e nos tornar
adultos em vários sentidos, em alguns sentidos temos de continuar
permanentemente crianças ao longo dos anos:
I Coríntios
14:20 - Irmãos, não sejais meninos no entendimento, mas sede meninos na
malícia, e adultos no entendimento.
Mateus 18:3
- E disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes
como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus.
Crianças são bem-vindas no reino de Deus. Crianças são bem-vindas nas águas do batismo. Crianças são bem-vindas no culto. Crianças são bem-vindas porque todos somos, e continuaremos sendo, crianças de Deus eternamente.
Perfeito. Faz todo o sentido.
ResponderExcluirA não ser que Paulo esteja usando a palavra santo em algum outro sentido (o que não é usual em suas cartas), os filhos de pelo menos um pai crente, são santos, logo, dentro do processo de santificação, logo, justificados.
E no texto vc faz uma reflexão importante: o próprio Cristo disse que das crianças era o reino de Deus.
Obrigado, meu irmão!
ExcluirEu apenas diria que a conclusão a respeito da justificação dos bebês é um non sequitur. É necessário que eles nasçam de novo.