Hermenêutica anticapitalista

Introdução

A BBC publicou uma reportagem sobre um grande e belo galpão que a Amazon construiu em uma favela em Tijuana, no México. Você pode ver a matéria aqui. A reportagem foi provocada por uma foto que alguém tirou em que o galpão e a favela aparecem em um contraste impressionante. O fotógrafo comentava que o objetivo era mostrar a desigualdade promovida pelo capitalismo e acrescentou que, de maneira nenhuma ele teve de tomar distância para que a foto incluísse o galpão e a favela em uma mesma imagem. Ele teve de tirar a foto a uma certa distância porque, próximo ao galpão, há um esgoto a céu aberto e bandidos.

O viés anti-capitalista

A reportagem da BBC é toda montada para destacar a desigualdade e o contraste entre a riqueza e a organização do galpão da Amazon, e a desorganização e miséria da favela, incluindo, interessantemente, um certo nexo causal entre as duas coisas. A Amazon se mudou para o México para explorar os pobres mexicanos.

Advogado do Diabo?

Meu objetivo não é defender a Amazon, nem nenhum aglomerado de ricaços que sonham com um monopólio para poder fazer nações se dobrarem a seus pés. Mas eu quero demonstrar alguns problemas na apresentação da notícia pela BBC.

O pecado imperdoável

Engana-se quem pensa que o problema com a Amazon é explorar e oprimir. Quem acredita que a BBC emprestou seu prestígio a um fotógrafo marxista porque não suporta a opressão de pobres e indefesos mexicanos, labora em erro consumado. O grande pecado da Amazon não é outro que não a terrível maldade de dar certo, de prosperar, de enriquecer.

Se você se pergunta por que o discurso marxista é tão influente e sedutor, por que as pessoas são tão facilmente enredadas entre os dedos do bruxo alemão, talvez isto ajude a entender. É absolutamente falso o pensamento de que as pessoas são movidas por um desejo íntimo infatigável pela justiça. Não! Estamos em um mundo caído. Desde que Adão comeu o fruto proibido, todo homem nasce em pecado (pecado original) e comete pecado (pecado atual). O homem é levado, não por um senso de justiça verdadeiro, mas pela cobiça. O desejo pelo prazer, pelo poder e pela riqueza ilegítimos é a força motora da raça humana em seu enterrar-se de pecado.

De todos os pecados que a Amazon, enquanto projeto humano, cometeu, porque nós já podemos esperar que haja pecados na fundação, desenvolvimento e funcionamento da Amazon, nenhum deles causa sequer um pingo de ressentimento entre os repórteres da BBC, exceto aquele que não é, na verdade, pecado algum: construir um galpão decente em um lugar onde todos os prédios são degradantes.

De onde a revolta? De onde o dedo em riste e a inconformidade com o status quo? Do fato de a Amazon estar rica. Essa é a questão. O que a cobiça não pode perdoar é o fato de o dinheiro não estar em seu próprio bolso. O fotógrafo está enfurecido, amargurado, entorpecido pela ira, porque o galpão não é dele.

Causalidade

A real motivação do protesto da reportagem é, portanto, a inveja. A cobiça e nada mais. No entanto, a cobiça aparece sob o manto de uma justificativa. A BBC dá a entender que a Amazon colocou seu prédio ali para fazer dele um centro de exploração de mão-de-obra barata o que, para todos os raciocínios e concatenações dos socialistas britânicos, é um crime contra a dignidade humana.

A presunção implícita é de que a favela existe por causa do galpão. Isto é, se não fosse o galpão da Amazon, a favela não seria favela. Se nós fechássemos todos os galpões de empresas, resolveríamos o problema das favelas no mundo. O capitalismo, o que mais seja, é a causa da pobreza.

Um pequeno problema no raciocínio

O único problema desse raciocínio é, e eu acho que os repórteres da BBC acham que esse problema é bastante sem importância, que o raciocínio é simplesmente falso, quando examinamos os dados da realidade. Para todos os efeitos, a favela de Tijuana estava lá muito antes da Amazon construir qualquer galpão na região.

Tijuana já era uma favela cheia de desempregados, desesperados, trabalhadores desocupados, presas fáceis do crime e dos vícios, bem antes do poderio avassalador da Amazon cometer o disparate de construir um prédio com alicerces, telhado e pintura e oferecer uma alternativa de trabalho para os moradores da favela que não implique em risco de serem presos ou mortos.

O salário de miséria

Segundo a reportagem, a Amazon oferece salários entre R$ 10 e R$ 20 a hora, aproximadamente, enquanto, nos EUA, pagaria algo em torno de R$ 75 a hora. Parece, de fato, que a BBC achou o furo: o capitalismo é mau porque procura sempre o trabalhador mais barato para aumentar os lucros da operação.

Nem tudo que reluz é ouro (ou cobre)

Mas será que é realmente isso? Parece muito óbvio que a Amazon transferiu boa parte de suas operações de logística para o México porque o preço da mão-de-obra compensava. Ninguém pode negar isto. Com relação a este ponto, joinha para a BBC. A Amazon não construiu galpões no México pensando no bem-estar da humanidade e na prosperidade da favela de Tijuana.

Mas, assim como a Amazon, a BBC também é uma empresa. E eu tenho de ser coerente e aplicar à BBC o mesmo ceticismo que eu aplico à Amazon. Assim como a Amazon não estava pensando no bem dos pobres quando decidiu iniciar operações em Tijuana, a BBC tampouco estava pensando no bem dos pobres quando “denunciou” a desigualdade e a exploração.

Um pouco de economia

Para entender isso, temos de pensar um pouco sobre a dinâmica da economia do mundo real.

Se uma grande companhia de um país desenvolvido percebe que vale a pena transferir suas operações de seu próprio país para um país mais pobre porque o salário dos trabalhadores por lá é mais baixo, ela, provavelmente, o fará.

Se ela o fizer, uma boa parte dos trabalhadores que ela empregava em seu país ficará desempregada e uma boa parte do dinheiro que eles recebiam deixará de circular na economia daquele país e começará a circular na economia daquele país mais pobre.

Os ex-empregados daquela companhia perderam seus empregos, mas não perderam seu direito a voto, e eles votarão no político que mais lhes agradar.

O político que está hoje no poder quer continuar no poder amanhã e, portanto, quer os votos desses trabalhadores. Ajudaria muito conseguir esses votos se ele trouxesse mais renda e, talvez, empregos para esses trabalhadores.

A BBC tem laços com o governo britânico, o que torna óbvio que ela tem laços com poderes e interesses políticos. Inclusive com os poderes políticos que estão de olho nos votos dos ex-empregados da Amazon.

Criticar a Amazon, do ponto de vista da BBC, é meramente criticar alguém que deixou de pagar impostos e empregar pessoas em seu território e foi fazer isso em outro território.

Mais um pouco de economia

E com relação a Tijuana?

A questão fica muito mais simples se pensarmos em Tijuana. A pergunta que temos que fazer é: a vida de um morador desempregado de Tijuana ficou melhor ou pior depois que a Amazon construiu um galpão imenso ao lado de sua casa e lhe ofereceu emprego e fonte de renda?

Se a resposta for que a vida dele ficou melhor, a quem interessa que a Amazon feche sua operação no México e volte para o país desenvolvido de onde veio? Com certeza não interessa ao ex-desempregado de Tijuana.

A comparação correta

Se levarmos em consideração que os interesses dos mexicanos são mais bem atendidos pelo galpão ativo da Amazon do que pelo galpão inativo, temos de pensar em uma comparação diferente daquela que a BBC fez.

E se, ao invés de compararmos o salário pago aos mexicanos com o salário que era pago aos americanos, comparássemos o salário pago aos mexicanos com a renda deles mesmos antes da Amazon abrir a porta de emprego para eles?

Além do fato óbvio de que os desempregados recebem da Amazon provavelmente muito mais do que tinham antes, existe um efeito ainda mais amplo que é o fato de que a maior oferta de empregos afeta o equilíbrio do mercado. Assim, um número menor de desempregados torna a oferta de mão-de-obra mais escassa e, portanto, mais cara. Em outras palavras, a operação da Amazon tem o condão de melhorar, de forma indireta o salário de todos os trabalhadores, mesmo os que não trabalham para ela, porque ela diminui a quantidade de trabalhadores disponíveis.

BBC invejosa

Eu não imagino que a BBC tenha inveja da Amazon, as duas não são concorrentes. O que me parece é que a BBC tem inveja dos mexicanos. Ela cobiça a riqueza e as vagas de emprego que a Amazon tirou de países desenvolvidos e levou para um país pobre.

Mas o público para o qual a BBC se dirige provavelmente não compartilha da mesma inveja. Por isso, o que a BBC faz é explorar a inveja que os seus leitores têm. Os leitores, todos filhos de Adão pecadores, estão ávidos pela riqueza que não é deles.

Pintar a Amazon como causa da miséria de Tijuana dá aos mexicanos, aos brasileiros e aos americanos uma justificativa plausível para sua cobiça.

O capitalismo não é o problema

Existe algo do capitalismo que é estritamente bíblico e cristão. Os princípios apresentados nas Escrituras de herança, propriedade privada, trabalho duro, frugalidade e justiça, são capazes de criar um sistema de estímulo à produção de riqueza que nós facilmente chamaríamos de capitalismo.

Isso não é dizer que o mercado faz justiça por si mesmo, ou que as decisões livres das pessoas irão por si mesmas gerar a riqueza e a justiça que se espera. Adão pecou livremente no jardim, e todo homem depois de Adão é propenso ao pecado, e essa é a prova de que as decisões livres dos indivíduos não são a resposta final para o problema da injustiça.

Mas isso não torna os princípios bíblicos que dão forma ao capitalismo no grande Satã da religião marxista. A Bíblia continua sendo verdadeira. Deus é verdadeiro e todo homem mentiroso.

O pecado é o problema

A base, o eixo e o acme do problema são o pecado. E a cobiça é pecado. O pecado é transgressão da lei de Deus. E a lei de Deus diz, não cobiçarás. Portanto, a cobiça é pecado.

O pecado é a fonte da injustiça, porque o pecado é a injustiça. A desigualdade não é o problema, a injustiça é o problema. A desigualdade pode ser justa ou injusta. Se for justa, ela não é o problema. Se for injusta, ela é o problema, mas por causa da injustiça que é, essa sim, pecado.

Mas a pergunta fica: o que é justiça?

A justiça

Justiça é um valor transcendental. Ela não está baseada em nada que venha deste mundo. Ela está baseada no Ser Divino. Deus é justo, e, portanto, o fundamento da justiça, a régua pela qual medimos todas as outras coisas é o caráter do Deus justo.

O caráter de Deus está revelado em Sua palavra e, assim, o que temos de fazer é procurar nas Escrituras os princípios e práticas justos que Deus nos revelou.

É nas Escrituras que encontramos herança, propriedade privada, trabalho duro e frugalidade, que são lei de Deus e, se aplicados, criarão um sistema de coisas que, com muita facilidade, nós chamaremos de capitalismo. Pelo menos Marx chamaria de capitalismo.

A solução

A solução, contudo, não está na lei. A lei revela o problema, mas é o evangelho que resgata o perdido. Cristo Jesus morreu em uma cruz sob o poder de Pôncio Pilatos para que pecadores fossem salvos.

Pecadores não podem salvar a si mesmos. Por isso toda tentativa humana de resolver as injustiças que encontramos na sociedade à parte da lei e do evangelho acabarão por criar mais pecado e mais injustiça.

Por isso, o socialismo nunca deu e nunca dará certo. Por isso o anarquismo nunca deu e nunca dará certo. Por isso nunca poderemos ter um livre mercado verdadeiramente livre enquanto a base da nossa liberdade não for a redenção realizada por Jesus Cristo na cruz.

O livre mercado pode ser uma grande fonte de opressão e indignidade se não for livre. Ora, mas isto é dizer que o problema não é o livre mercado. O problema é o pecado no coração do homem que faz o mercado. Escravos não podem fazer um livre mercado. Somente homens livres podem fazer um mercado livre (sem trocadilhos).

Cada pessoa tem de se arrepender de seus próprios pecados e crer em Cristo para ser salva. E uma vez que a Verdade a liberte ela será verdadeiramente livre. Uma sociedade formada de pessoas assim é incompatível com uma economia centralizada, seja no governo (socialismo), seja em cartéis, seja em uma mistura das duas coisas (mercantilismo).

 


Comentários

  1. Ótimo artigo. Dado que ele desconstrói inúmeros sofismas que são envernizados com um sentimentalismo barato e tóxico, mas com pouco ou nenhum contato com a realidade objetiva.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado, amigo. "Desconstruímos y seguiremos desconstruindo" Che Luccas

      Excluir

Postar um comentário