Se a salvação é a libertação do pecado, por que a salvação para o cristão no presente mundo não significa a aniquilação imediata da morte e dos sofrimentos que são, em suma, o resultado do pecado? E por que Santo Irineu nos ajuda a responder esta pergunta?
Eu creio que a resposta para esta pergunta deve passar por dois estágios. Primeiro, a razão porque Deus não deixou Adão morrer imediatamente após a queda. Segundo, a razão porque a nossa salvação não vem de nenhum outro modo senão pelo sacrifício infinito de Jesus.
Assim como, ao pecar, Adão não morreu imediatamente, mas foi sujeito a um período de provações e de espera até que o Salvador viesse, assim também o homem agora redimido por Cristo não é exposto imediatamente a todos os efeitos da salvação, mas está submetido a um período de provação e espera até que a sua salvação seja confirmada pela perseverança.
Isso de forma alguma contradiz o amor de Deus, pois a salvação que nos é dada em Cristo é eterna. Todo o tempo de provação a que sejamos submetidos e toda a espera que tenhamos que viver são menos do que nada diante da eternidade e são como se fossem imediatas, na verdade.
Por outro lado, a nossa salvação não foi realizada pelo mero decreto de Deus, mas por um sacrifício de Cristo na cruz, entregando Sua vida à provação máxima e vencendo. Nós, assim como o segundo Adão, temos de carregar a cruz e seguí-lo. Cristo não apenas nos comprou e nos deu a salvação, Ele nos mostrou o caminho. É de graça, mas custa tudo.
Isto é exatamente como nos ensinaram Santo Irineu e outros pais da igreja. A salvação é, entre outras coisas, Deus recapitulando a história. Os fatos que ocorreram na queda e que roubaram da vida humana o sentido, são redimidos e recebem um sentido de valor eterno. A mulher que perdeu seu sentido trazendo pecado ao mundo readquire sentido dando à luz o Salvador. A árvore que perdeu seu sentido sendo usada para o pecado readquire o sentido sendo usada como o altar em que Cristo foi sacrificado. O jardim do Éden que perdeu seu sentido sendo o lugar da queda do homem readquire seu sentido no Jardim do Getsêmane sendo o lugar onde o Cristo se entrega ao Pai em oração, ao sacrifício que traz salvação a todos os homens. O próprio homem que perdeu seu sentido se tornando o culpado da própria morte e da morte de todos os seus filhos readquire sentido quando Deus se faz homem e traz justificação e vida a todos os homens. Nessa esteira, a vida de provações e sofrimentos do homem perdem seu sentido por causa do pecado, como dizia o sábio, vaidade de vaidades, tudo é vaidade. Mas em Cristo as provações e até a morte do homem recuperam sentido, pois, agora, a morte e sofrimento não são o mero fruto do pecado, mas a participação nos sofrimentos de Cristo e na morte de Cristo.
Leia São Paulo sobre isso:
Filipenses 3:
7 - Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo.
8 - E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo,
9 - E seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé;
10 - Para conhecê-lo, e à virtude da sua ressurreição, e à comunicação de suas aflições, sendo feito conforme à sua morte;
11 - Para ver se de alguma maneira posso chegar à ressurreição dentre os mortos.
São Paulo considerava que a salvação era fruto unicamente da obra de Cristo na cruz, mas que ele mesmo só poderia alcançar tal graça de Deus se cresse unicamente no Senhor enquanto passava por todas as tribulações e provações da vida presente (9,10). O fruto completo da salvação ele alcançaria na ressurreição (11).
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