Deus Inevitável

No princípio, criou Deus os céus e a terra.
E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

Gênesis 1:1,2


Deus é antes de tudo. Nada antes Dele. Nenhuma explicação para Ele antes Dele mesmo ou fora Dele mesmo. Só Deus explica Deus e, aqui, Ele reserva a Si mesmo o direito de não se explicar a ninguém.


O que os filósofos cristãos fazem disso? Deus é o Ser Necessário. Necessário por causa da sua própria natureza. Ou seja, Deus não poderia não existir. Todas as coisas que poderiam existir ou não existir são contingentes. Um carro, por exemplo, poderia não existir. Ele existe, agora, já que foi criado, mas poderia não ter sido criado, e, então, não existiria. Mas Deus não poderia não existir, portanto, a Sua existência não é contingente, ela é necessária.


Deus não foi criado por ninguém. Ninguém é Sua causa. E portanto, ninguém poderia evitar a existência de Deus.


Ninguém poderia evitá-lo. E ninguém ainda pode evitar a Deus. Nem nossa negação, ou nossos olhos tampados ou nosso coração endurecido. Nada pode evitar Deus. Ele não foi criado por nós, e não pode ser evitado por nós.


Talvez por isso estejamos vendo cada vez mais homens que antes flertavam com o ateísmo se voltando para Deus. Pessoas mesmo do mundo acadêmico que estão deixando seus pressupostos naturalistas, com algum grau de relutância, de fato, mas deixando de qualquer forma.


Jordan Peterson, um dos mais famosos psicólogos do mundo, é um deles. Perguntado se acredita em Deus, ou se acredita que Deus existe, ele costuma rebater com perguntas sobre o que é acreditar e o que é existir, relutante em dizer: eu acredito que Deus existe. Mas note que, interessantemente, ele tem, agora, mais dúvidas sobre o que é acreditar e o que é existir do que sobre Deus.


E essa relutância pode ter razão de ser. Afinal, o que é crença? E o que é existir?


As duas palavras são complicadas de se definir, porque uma fala de uma atitude da alma e a outra é, de fato, um conectivo. Crença é uma disposição da alma em direção a alguma coisa, uma disposição de assentimento e de consentimento. No caso de Deus, nas Escrituras, a fé, ou a crença Nele, é a confiança em Deus (Rm 4), que nada mais é do que uma disposição da alma para depender de Deus e não de si mesmo ou de terceiros.


Existir é bem mais complicado, porque existir está ligado a ser que é, na linguagem humana, um conectivo: quem é é alguma coisa. A palavra “é” é um conectivo entre o sujeito e o objeto. Mas a palavra existir não conecta sujeito a objeto algum que não o próprio ser. Trata-se de um verbo intransitivo. Quem existe, existe, não existe alguma coisa, só existe.


Se pensarmos nesse sentido, talvez, existir seja, de fato, a melhor palavra para descrever a Deus. Foi isso o que Ele disse de si mesmo: Eu Sou. Sem conectivo depois. Sob insistência, encontramos Ele esticando a frase: Eu Sou O Que Sou (Êx 3.14).


Deus não existe como as outras coisas existem. Porque se dissermos que o peixe existe, queremos dizer que o ser do peixe está ancorado na realidade, fora de nossas cabeças e imaginações, como um ser real que não depende de nossas aspirações, desejos ou criatividade para ser algo no mundo.


Mas se dissermos que Deus existe, não estamos querendo dizer que o ser Dele está ancorado em nenhuma realidade fora Dele mesmo. Ele é a própria âncora da realidade. Em comum com o peixe, Ele não está só em nossas cabeças e imaginações. Mas diferente do peixe, Ele não está no mar. O mar está Nele. Nele vivemos e existimos (At 17.28). Ele é a realidade em Quem – não em quê – tudo está ancorado.


Mais um ponto para os filósofos cristãos: Deus é um ser necessário. A existência Dele não está ancorada em nada mais além da própria necessidade do Seu Ser.


Deus é antes de tudo. Nada antes Dele. Nenhuma explicação para Ele antes Dele mesmo ou fora Dele mesmo. Só Deus explica Deus e, aqui, Ele reserva a si mesmo o direito de não se explicar a ninguém. Em outras palavras, Deus é Deus.


Isto corrobora todos os argumentos que usamos para falar da existência de Deus. Note que nenhum deles é uma explicação de Deus. Todos os argumentos da teologia natural: cosmológico, teleológico, moral, ontológico, etc. São a engenharia reversa aplicada à criação de Deus. Deus explica tudo. Nada explica Deus. E é assim que sabemos que Ele é Deus. Porque se alguma coisa explicasse Deus, essa coisa seria Deus. Mas só Deus explica Deus. Portanto, só Deus é Deus.


Antes de todas as coisas. Deus é. E todos os argumentos levantados contra Deus revelam um entendimento inadequado do tipo de Ser que Deus é.


Eu poderia não existir. Deus poderia ter evitado a minha existência. Portanto, sou contingente. E o mesmo podemos dizer sobre tudo o que existe fora de Deus. Toda a criação. Deus poderia ter evitado o mundo, e então, teria evitado o Diabo. Deus poderia ter evitado o céu, e também evitado o inferno. Deus poderia ter evitado a existência da vida e também da morte. Porque todas essas coisas são contingentes. Elas não existem por nenhuma necessidade de seu ser, mas por causa da vontade de Deus (Ap 4.11).


Mas Deus é o inevitável. O Seu Ser é necessário. Não depende de nada fora de si mesmo. Ouça, mundo. Ouçam, pecadores. Ouça, terra. Ouçam, poderosos: Deus não pode ser evitado. Ele não foi evitado. Ele não será evitado. Deus é. Desde sempre e para sempre.


E mais, ouçam os filhos de Deus, os que se alegram na Sua bondade. Os que anseiam pela Sua presença. Os que amam o Seu Nome. Os que confiam na Sua vontade. Deus, o seu Deus, não pode ser evitado. O Seu Ser é necessário.


No princípio criou Deus os céus e a terra. E os céus e a terra só existem por causa dele, mas a recíproca não é verdadeira. É em Deus que se encontra o princípio de todas as coisas. Foi Ele quem as criou. A explicação para o mundo está em Deus, e isso é inevitável.


Os ímpios nos acusam de usar Deus para responder tudo. Mas se tudo foi criado por Deus, como foi, que outra resposta encontraremos? Onde poderemos desvendar os mistérios do mundo se não em seu Criador? Não seria leviano de nossa parte nos esquivar da resposta verdadeira apenas porque não nos agrada?


Mas, note, que o princípio da existência do mundo é, na verdade, o seu princípio. O seu mesmo, leitor. E se a explicação para tudo que há no mundo está em Deus. A explicação para sua existência também está.


Você existe por um ato da vontade de Deus. Sua existência é contingente. Você poderia não existir. Mas não é um acidente. É um ato proposital de um Deus misterioso e, ao mesmo tempo, glorioso.


Seu andar, seu deitar, seu acordar, seu viver e a sua própria existência estão ancorados em uma realidade fora de você mesmo. Em uma realidade que não está ancorada em mais nada além da necessidade de Seu próprio Ser. Você existe em Deus e se move Nele (At 17.28).


A questão é que o peixe nem sempre vê a cor da água em que está nadando. E o homem nem sempre acode à Realidade que o circunda. Sua existência não está ancorada na maldade que vê no mundo, nem nas trevas, nem no pecado. Sua existência está ancorada em Deus, luz em quem não há treva alguma (I Jo 1.5).



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