A Predestinação E O Brasil

Qual a significância da doutrina da predestinação para a eleição do genocida ladrão? E para os crimes que vem sendo cometidos contra o povo brasileiro? 

A percepção generalizada entre os brasileiros de que algo muito mau está acontecendo com o seu país, de que ímpios estão assumindo o controle da nação e de que isso significará muitas injustiças que serão cometidas contra o pobre e o inocente pode gerar nos mais espiritualmente atentos a questão a respeito da relação de Deus com tudo isso.

Eu creio que a primeira parte da resposta tem de passar necessariamente por um entendimento de como Deus se relaciona com o mundo. Existe um grupo de pessoas que acredita, na realidade, que Deus não se relaciona de forma alguma com o mundo. Eles pensam que o mundo é como um relógio que Deus construiu, puxou corda e deixou para lá. Estes são os deístas. Para eles, ainda que Deus exista, ainda que tenha criado o mundo e projetado suas leis, para todo assunto prático, está ausente e é irrelevante. A única coisa que o homem pode de fato conhecer e com que ele deve de fato se preocupar são as leis do mundo criado por Deus, pois elas são o único elo que o homem tem com Deus. Deus não se comunica mais com o homem senão por meio das leis que estabeleceu no universo. Para os deístas a oração, o culto, a meditação, o jejum, são inúteis no que tange a conhecer a Deus e a obter respostas Dele. Nada fará Deus interferir no mundo criado. Toda a vontade Dele já está manifesta no ato da criação e o homem está sozinho para operar no mundo. 

Nós não concordamos com os deístas. Um Deus que não se relaciona mais com sua criação não enviaria Seu Filho ao mundo para salvá-lo. Mas Deus enviou Seu Filho. Portanto, Deus se relaciona com a criação e quer salvá-la. 

Assim, nós sabemos que Deus se relaciona sim com o mundo e opera ainda hoje. Mas de que forma? Deus opera no mundo por dois meios principais, sem prejuízo de outros, podemos dizer. Um meio é a providência e o outro é a predestinação. As duas coisas não são o mesmo, embora ambas tratem do mesmo assunto, a saber, como Deus opera no mundo. 

A providência tem a ver com a forma como Deus mantém, sustenta e direciona a Sua criação. A providência de Deus determina a manutenção do mundo, inclusive da vida, a direção da história e os eventos da natureza. Se colocarmos em forma de verbo, podemos dizer da seguinte forma: Deus providencia para que o sol nasça, para que as nuvens formem a chuva, para que o vento sopre, para que a chuva seja pouca ou muita, para que o solstício e o equinócio ocorram, para que o bebê nasça, para que a lua seja cheia ou nova. Obviamente, a providência também abrange eventos não tão agradáveis: um terremoto, um vulcão que entra em erupção, uma chuva que causa um deslizamento, um maremoto que se torna um tsunami, uma morte e até mesmo o pecado. Nada acontece no universo sem a intervenção da providência divina. Ele é aquele que faz tudo conforme o conselho da Sua vontade (Ef 1.11). 

Na providência tudo ocorre conforme a vontade de Deus. Quer seja porque Deus quer o evento, quer seja porque Deus quer permitir o evento. Em outras palavras, Deus deseja algo ou Deus permite algo. Mas nada pode acontecer à parte da vontade de Deus.

Mas não façamos disso uma desculpa para borrar a diferença entre o bem e o mal. Deus é bom, quer sempre o bem. Deus detesta o mal. Deus é luz e Nele não há treva alguma (I Jo 1.5). Portanto, toda vez que o mal ocorre, não é porque Deus desejou o mal, mas porque Deus permitiu o mal. 

Na história da igreja muitos mestres da Palavra meditaram profundamente sobre o assunto, e sábios como Agostinho e Tertuliano nos ensinaram que Deus só permite o mal porque é onipotente, onisciente e onibenevolente. Como Deus onipotente, Deus pode impedir e limitar o mal, pode fazer o mal  colaborar para seus bons propósitos e, no fim, pode fazer com que o bem prevaleça e o mal seja suplantado. Como Deus onisciente, Ele pode saber exatamente de que maneira cada mal que ocorre no universo se encaixa em Seu plano perfeito para redimir e restaurar a Sua criação. Como Deus onibenevolente, Deus quer todo o bem e a liberdade é um bem em si mesmo. Permitir que, no caso do mal moral, a sua criatura possa fazer o que é contrário à Sua vontade prescritiva é necessário para se obter um bem maior que é a liberdade, de onde Deus pode ceifar frutos magníficos, o amor, a consagração, a fidelidade sincera daqueles que se convertem a Ele e se arrependem de seus pecados.

A predestinação é diferente da providência nisto: a predestinação é (i) por meio de Jesus Cristo, isto é, sempre em Cristo, nunca fora de Cristo, (ii) conforme o beneplácito de Deus, isto é, seu prazer em fazer o bem, sua boa vontade para com Suas criaturas, (iii) para a adoção de filhos, isto é, para a salvação (cf. Ef 1.5). 

A predestinação é o motivo da nossa salvação, não da nossa destruição. A predestinação é a razão porque nós, que antes éramos trevas, agora somos luz. A predestinação é o plano e o projeto de Deus que permite que homens sem esperança tenham esperança, e o projeto é todo montado por Deus em Cristo, pelo Espírito Santo para que os cegos vejam, os mortos ressuscitem e os perdidos sejam encontrados e salvos.

A providência e a predestinação estão intimamente ligadas, com certeza. Não obstante são coisas diferentes.

Agora podemos perceber com clareza que os eventos que estão acometendo o Brasil estão muito mais bem encaixados na providência de Deus guiando a história do que na predestinação salvando pessoas. 

O que devemos evitar meditando nessas coisas é nos tornar indiferentes, fatalistas e inertes no bem. Uma tentação que seduziu a muitos. Me refiro àqueles que pensam que se Deus permitiu que um mal tão grande acometesse a nação, a única maneira correta de prosseguir é nos calar e evitar fazer qualquer coisa que possa trazer mudança ao quadro tenebroso e moribundo da nação. Afinal, não é a providência de Deus que permitiu a doença? Não é a providência de Deus que permitiu o golpe e a trapaça?

Esse seria o erro de um outro grupo de hereges experientes, os estoicos. Para eles, tudo o que acontece, acontece pela vontade de Deus, e como Deus é o supremo bem, só o bem acontece. Os males nada mais são do que interpretações equivocadas da nossa mente. Os males, na verdade, são bens. O estoico é louvado na literatura pela sua capacidade de suportar a dor e de ser paciente sob pressão. No entanto, a motivação do estoico não é a recompensa da paciência, mas a crença de que a pressão não existe. 

Também não nos aliamos aos estoicos. Somos cristãos. Se o mal não existisse, o Filho de Deus não teria morrido na cruz para nos salvar. Se o mal não existe, Jesus Cristo não venceu nada. Mas Jesus venceu o mal na cruz. Portanto, o mal existe.

O fato de que a providência de Deus permite que males ocorram no mundo não deve nos desanimar do objetivo de vencer o mal, pelo contrário, Deus permite que o mal aconteça para que o mal seja vencido pela fé cristã, e não pelo conformismo estoico. Lembre-se, Deus permite o mal porque é onipotente para garantir que ele será derrotado no final.

Deus nos submeteu a uma grande provação porque tem poder para nos fazer vencer. A fé na onibenevolência, onisciência e onipotência de Deus são essenciais para mantermos nossa esperança e nossa fé vivas quando os fundamentos da terra são abalados, a justiça é negada e a verdade é retida na injustiça. Deus não nos abandonará jamais (Mt 28.20). 

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