Desde os tempos primordiais da igreja, os jovens foram louvados por sua força, sua coragem e sua paixão no caminho da fé. Mesmo o Discípulo Amado, um dos Filhos do Trovão, o Apóstolo São João, escreveu especificamente para os jovens por causa dessas qualidades importantes do jovem: Eu vos escrevi, jovens, porque sois fortes, e a palavra de Deus está em vós, e já vencestes o maligno (I Jo 2.14).
Aqui, claramente, o apóstolo reconhece uma qualidade marcante dos jovens: a sua força. É a mesma qualidade que o profeta reconheceu no Antigo Testamento: A glória do jovem é a sua força; e a beleza dos velhos são as cãs (Pv 20.29). Jovens são fortes e, por serem fortes, são capazes de fazer coisas extraordinárias.
Mas não é só a força que o Apóstolo notou nos jovens, e não é só a força que torna jovens úteis e benditos. Eles não venceram o Maligno porque são fortes. Venceram porque a Palavra de Deus está neles.
A força do jovem pode habilitá-lo a fazer coisas extraordinárias, quer para o bem, quer para o mal. Ser forte, por si só, não significa ser bom. A capacidade de carregar um peso maior por maiores distâncias não faz que o jovem seja bom. Tudo depende do que ele está carregando e para onde está levando.
O que torna um jovem bendito não é ser forte, é ser bom. Um jovem bem direcionado, guiado pela Palavra de Deus, pode fazer coisas extraordinárias para o bem, pode levar muitas almas a Cristo e submeter grandes inimigos ao poder da Verdade.
Conta-se que na Rússia comunista, perseguidora de cristãos, certa vez, a igreja subterrânea promoveu um encontro regional de jovens cristãos. Os jovens tinham pouco acesso as Escrituras e, portanto, tinham que memorizar a Bíblia para poder meditar nela.
No Encontro, decidiram fazer um teste. O desafio era que os jovens deveriam reescrever o Evangelho de Mateus apenas com a sua memória, ou seja, com o que tinham decorado das Escrituras. Era um trabalho em grupo, um corrigiria o outro e, assim, eles tentariam reproduzir o Evangelho. No fim, eles teriam de comparar o texto memorizado com o Texto escrito na Bíblia e ver se tinham memorizado corretamente.
O resultado é que, no fim, eles conseguiram reproduzir perfeitamente o Evangelho de Mateus. Perfeitamente! Os jovens são fortes e podem fazer coisas extraordinariamente boas se colocarem a sua força a serviço do Deus Bom.
Algo que tem preocupado, não só a mim, mas a muitos outros cristãos atentos é a fraqueza, o cansaço, o desânimo e, pior de tudo, a apatia e a indiferença da geração mais jovem de crentes dos nossos tempos.
Eles tem muita dificuldade em se comprometer de forma séria com qualquer coisa que seja relacionada a Deus ou a igreja. Não estou dizendo que não haja jovens comprometidos, mas que eles são, tristemente, a exceção. Há um generalizado desinteresse por coisas como a oração, o culto, o evangelismo, o estudo bíblico, o ministério, ou qualquer atividade da igreja que implique algum tipo de compromisso de tempo e que não envolva algum tipo de pizza no final.
Cultos de oração em que haja oração, que envolvam dobrar os joelhos, que envolvam entrar em um estado de meditação e de comunicação com Deus, que impliquem se desligar temporariamente das coisas que agradam a carne, dos assuntos que estimulam a ansiedade e dos famigerados e repetitivos sonhos pessoais, são tidos sistematicamente como desagradáveis, monótonos, tediosos.
O jovem contemporâneo não quer a transcendência. Não quer o mundo espiritual. Não quer o céu. Não quer ser cheio do Espírito Santo. Ele quer a terra. E ele quer agora. O que é espiritual pode esperar para depois. Quando ele estiver velho, quando não tiver mais forças. Quando qualquer coisa extraordinária que ele pudesse fazer tenha sido feita para aquilo que é extraordinariamente sem importância, o meramente imanente, o temporário, o passageiro, o terrestre, o mundano.
Não estou me referindo a jovens em geral, mas a jovens cristãos em geral. Eu até esperaria que o jovem descrente não tivesse um olhar para o que é eterno, apenas para o que é temporal. No entanto, eu esperaria que o jovem crente fosse capaz de, sem tirar seus pés do chão, se dedicar a coisas mais altas, mais importantes, mais sublimes, mais celestes em sua natureza. Justamente porque ele é crente: ele sabe que o terreno é passageiro, mas o celeste é eterno.
Também não estou dizendo, em hipótese alguma que o jovem contemporâneo seja fraco. Isso seria uma estupidez. O jovem é forte por ser jovem. Essa verdade não muda. Em todas as épocas é verdade que o jovem é forte. Inclusive a nossa época. O que estou percebendo é que a força dos nossos jovens está sendo desperdiçada por sua indolência. Eles estão gastando a grande força da sua juventude em coisas que tem a aparência de grandeza, mas que são tão mesquinhas e passageiras que deixarão um buraco em suas vidas e uma decepção futura que será dificilmente revertida.
A força do jovem se manifesta em sua iniciativa, em seu entusiasmo, em sua resiliência e até, muitas vezes, em sua teimosia. Mas a maioria dos jovens hoje se caracteriza pela falta de iniciativa. Pelo medo, principalmente o medo de estar errado.
A grande quantidade de informações a que eles são expostos não lhes deu uma base firme de onde podem partir, de onde podem saltar e alcançar novas alturas. Pelo contrário, eles estão paralisados, pensando que, talvez, haja uma informação a mais da qual eles não sabem nada e que poderia provar que aquilo que eles agora sabem, na verdade, não sabiam, porque não era verdade, ou, supostamente não era verdade, porque mesmo essa informação nova pode estar a espera de uma informação mais nova ainda que desmentirá a verdade ainda não descoberta.
A questão, no entanto, não é a quantidade de informações, mas a qualidade das informações. Uma grande quantidade de informações com boa qualidade, informações que podem ser cridas, informações nas quais você pode pendurar o chapéu e outras coisas mais pesadas, não causará nenhum mal. A Bíblia está aí para provar isso. A Bíblia é um longo livro, com uma quantidade imensa de informações, todas verdadeiras, todas confiáveis, todas boas e todas renováveis para uso em qualquer época, sob qualquer circunstância.
A geração da informação, contudo, está repleta de informações que tem data de validade, que são válidas para uma determinada circunstância e não para outra. É informação condicionada, na maioria das vezes, pelo objetivo do informante. Um mesmo informante fornecerá informações contraditórias conforme o objetivo do momento. Neste momento algo é verdade porque eles querem levar a multidão para um determinado lado, e daqui a dois meses a mesma coisa é mentira porque agora a multidão tem que ir para o outro lado. As chamadas agências de checagem tem um papel importantíssimo para isso. Elas logo começarão a checar as próprias checagens quando o objetivo for outro.
Mas essa confusão de informações e desinformações ainda não é o maior problema. O problema é que os nossos jovens não estão dispostos a obedecer o quinto mandamento. O problema é que eles não querem honrar o pai e a mãe. O problema é que eles não acreditam que aquele que honrar o seu pai e a sua mãe terá uma vida boa e próspera na terra que o Senhor teu Deus te dá. O problema é que os nossos jovens acreditaram na ideia do conflito de gerações que nada mais é do que a ideia de que a geração passada está errada e a geração nova está certa e que, portanto, a nova geração não deve ouvir a velha geração, isto é, não deve honrá-la. O problema é que alguém fez os nossos jovens acreditarem que os pais devem ser honrados sim, quando forem honoráveis, isto é, quando forem dignos de honra. E, como sempre é possível encontrar pecados no currículo de pecadores, sempre será possível encontrar pecados no currículo dos pais e das mães e, portanto, sempre será possível encontrar motivos para não honrar um pai ou uma mãe. O problema é que o quinto mandamento é base para qualquer outra honra que se deve dar a qualquer outra autoridade legítima que se deva honrar. E quando o pai ou a mãe são tratados e vistos como patetas ignorantes, é óbvio que o pastor, a igreja, o mestre, o sábio, o experiente, o profeta, os pais da igreja, a história da igreja, a nação, a história da nação, os heróis do passado, também não podem passar de patetas ignorantes. E quando todos os que poderiam nos dar qualquer direção lógica e segura na vida são vistos por nós como patetas ignorantes, nos tornamos presas fáceis de pessoas malévolas que sabem explorar os nossos ressentimentos e mágoas para os seus próprios fins e que encorajam a nossa ira, sempre justa aos nossos olhos, para fortalecer o nosso ceticismo e transformar a nossa fé em cinismo.
Os nossos jovens não oram, quando oram não falam, quando falam não fecham os olhos, quando fecham os olhos não se ajoelham, quando se ajoelham dormem, porque não acreditam no que estão fazendo. É óbvio que eles não querem ir no sábado de manhã para a reunião de oração (quando havia reunião de oração no sábado de manhã) porque não acreditam na oração. Não acreditam na reunião de oração. Não acreditam que isso faz alguma diferença. Não acreditam que isso seja necessário. Não acreditam que Deus se agrada disso. Não acreditam que isso os tornará melhores, talvez até os torne piores, porque se se comportarem como os grandes pais da fé se comportaram, pode ser que se tornem como eles, homens corajosos, heróicos, que sacrificaram grandes coisas neste mundo por coisas que não são deste mundo, que viram, ouviram, respiraram, falaram e sentiram coisas que não os tornaram ricos ou poderosos neste mundo, mas gigantes de um mundo porvir, um mundo invisível a olho nu e que, por isso mesmo, eram patetas ignorantes. E isso, pelo menos aos olhos deles, seria uma tragédia da qual se arrependeriam profundamente.
Seria tolice pensar que esse cinismo e essa indiferença para as coisas espirituais, verdadeiras, cristãs e antigas é só preguiça. Os jovens são fortes. Apenas estão gastando as suas forças em outras coisas.
Algumas dessas coisas lhes são oferecidas por jornalistas de agências de checagem. Por pessoas que tem doutorado, pintam o cabelo de roxo e verde limão ou que só gravam vídeos na internet. Por pessoas que não são seus pais, nem na carne nem na fé. Pessoas que talvez tenham outros interesses ocultos por trás de suas opiniões, suas checagens, suas matérias, seus documentários, seus filmes, seus protestos, suas leis, suas notícias. Outras dessas coisas são o mero desenrolar do desejo sensual pelo prazer, pela aventura, a dopamina, a adrenalina, a sensação.
O problema pode ser colocado da seguinte maneira: por que os nossos jovens estão preocupados com as informações que lhes vem dessas fontes? Fontes que estão sempre mudando a cor de sua própria água, cuja água nunca é limpa e está sempre turva e enlameada?
Para ser terrivelmente honesto, de certa forma, eles foram forçados pelos pais a beber essa água. Submetidos a uma educação pagã, e estimulados pelos pais a buscar primordialmente fins materiais, os jovens acreditaram naquilo a que foram submetidos. Quando, de repente, quisemos que eles fossem espirituais descobrimos que eles nem sequer sabiam do que isso se tratava.
É realmente calamitosa a nossa situação e, contudo, não é completamente uma causa perdida. Muitos dos jovens a quem São João escrevia tinham estado expostos e grande quantidade de informações, manipulações, contradições, enganos e falácias. No entanto, em algum momento, acordaram e se tornaram, eles mesmos, os heróis da fé, os pais das próximas gerações de crentes que também fizeram coisas extraordinárias para Deus e para o reino. Coisas que lhes granjearam posições de beatitude eterna e felicidade celeste. Eles aprenderam a crer e a agir com base na fé. Eles aprenderam a amar a oração, o sacramento, a pregação da fé. De certa forma, também aprenderam porque tinham grandes mestres como São João e outros apóstolos, mas isso nos mostra que jovens podem errar, porém, podem mudar de curso e acertar.
Muitos dos grandes mestres da fé cristã, os pais a quem devemos honrar, foram eles mesmos, por algum tempo, jovens rebeldes e tolos antes de se tornarem jovens dedicados e consagrados a Deus. Santo Agostinho, o pai da igreja mais estudado entre os pais da reforma protestante, foi um jovem fútil, sacana, egoísta, carnal, rebelde, cínico e enganador, antes de se converter e se tornar um dos grandes mestres e defensores da fé cristã. Também é verdade que ele se tornou mestre e grande só muito tempo depois de não ser mais jovem. Mas se tornou cristão a tempo de gastar um pouco de sua juventude na fé da Verdade.
E, se observarmos o exemplo de Agostinho, podemos tirar lições para aplicar em nossas vidas, e em nossos jovens. Agostinho se converteu sob a pregação de outro santo, Ambrósio, que era bispo de Milão. Agostinho não era um tipo comum de jovem. Quando se converteu já era professor de retórica. Ele era especialista em manipular informações, e tinha se tornado cínico com relação às Escrituras e à Verdade. Mas ao se deparar com a santidade e a sabedoria visíveis na vida de Ambrósio, ele se viu desarmado. Agostinho não se converteu por causa de uma programação específica para jovens na igreja. Ele se converteu por causa de uma programação específica para santos na igreja. A igreja estava preocupada em preparar as pessoas para se encontrar com Deus, para ir para o céu, para serem santas. O foco da pregação era a Verdade, o foco da adoração era a Verdade, o foco da oração era a Verdade. Como a Verdade disse: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.
Um dia, Agostinho se deparou com o texto de Romanos 13.14: não tenhais cuidado da carne em suas concupiscências. E, ali, o Espírito Santo revelou a ele qual era o grande obstáculo para a sua conversão, e qual o caminho para superá-lo: Agostinho tinha medo de como suas paixões carnais seriam satisfeitas caso ele se entregasse a Cristo. Uma vez que ele deixasse de se preocupar com isso, não haveria obstáculo. Ele entregou o assunto aos cuidados do Senhor, e se tornou um crente verdadeiro.
Nossos jovens estão absorvidos por preocupações dessa natureza. Algumas instigadas pelos mais velhos. A grande preocupação é sobre como satisfazer as paixões, como se tornar grande aos olhos dos homens, como ser você mesmo sendo exatamente igual todos os outros, como atrair o maior número possível de pretendentes, não ao casamento, mas a uma satisfação carnal temporária, a de ser visto com alguém, a de ter seus lábios tocados, e os botões sexuais do seu corpo acionados, como se tornar rico, como comprar bens, alguns mais importantes, outros nem tanto, como satisfazer a necessidade de entretenimento e de risos e gargalhas, como se sentir bem, como esquecer as preocupações, como não pensar nos problemas, como diminuir a ansiedade, como conseguir dormir depois de horas e horas em frente a uma tela. E muitas dessas preocupações seriam legítimas se existissem em uma posição subordinada, se estivessem mais no fim da lista de prioridades. Muitas dessas preocupações sequer existiriam se os jovens estivessem focados em uma coisa antes de todas as outras: ser santos, ser íntimos de Deus, ser fiéis a Cristo, crescer na graça, andar na presença de Deus.
É difícil, diante do que vemos, acreditar que esta seja a geração do avivamento, como quiseram nos fazer crer alguns pregadores mais empolgados. Talvez na próxima, pensamos. Mas um avivamento nunca é uma obra humana. O fato de que essa geração parece prometer tão pouco quando o assunto é compromisso com Deus, pode ser o chamariz para a atuação milagrosa de Deus. Pode ser que Deus, em Sua sabedoria infinita, pense assim: se Eu fizer um avivamento bem agora, todos saberão que fui Eu, e não o mérito humano. Talvez seja este o caso, talvez não. Não há como descobrir.
No entanto, isso não nos exime de nossas responsabilidades. Independente de como e quando virá o avivamento, cada vida conta. Cada jovem conta. Cada juventude desperdiçada, força inutilizada, paixão esfriada, inteligência corrompida e capacidade desviada contam.
Eu creio que já mencionei muito de como os pais contribuíram para criar essa situação. Mas eu quero me dirigir aos jovens, que são, na verdade, quase tão velhos quanto eu: jovens, vocês não são apenas bolas de feno levadas pelo vento. Vocês são pessoas. São seres humanos. São dotados por Deus de uma capacidade inata e inalienável de tomar decisões.
A capacidade de decidir é inata porque vocês a receberam não por merecimento, mas por nascimento. E é inalienável porque ela pertence só a vocês e a mais ninguém. Não podem delegar todas as decisões para os outros. Não podem se esconder atrás do consenso da maioria. Não podem fingir que a mentira é verdade sem custo próprio para sempre.
Vocês foram influenciados para chegar até onde estão, com certeza, mas influência não é coação. Decidiram estar onde estão. Agora, neste exato momento, estão sendo influenciados a fazer algo completamente oposto do rumo que o Diabo gostaria. Estão sendo influenciados a ser santos, a ser salvos, a ser crentes, a ser consagrados a Deus, a ser entregues completamente à vontade do Senhor, a entregar mais de si mesmos a Deus, a usarem a força que tem para objetivos maiores do que vocês mesmos, a olhar para algo que está além e acima do mundo terreno, e que só a fé em Cristo pode alcançar. O que decidirão?
Na prática, isto significa ser menos popular, menos da moda, menos transigente com o mundo, mais transigente com a igreja, com seus pais, com a história do povo de Deus. Significa orar na hora da oração, se ajoelhar na hora de se ajoelhar, ler a Bíblia como quem lê uma carta de amor, chorar aos pés de Cristo só de se lembrar da última vez que chorou aos pés de Cristo, amar o próximo não porque ele é bonito, legal ou interessante, mas apenas porque ele é o próximo que Cristo mandou amar, falar de Jesus e querer evangelizar por um senso de dever e não só de oportunidade. Enfim, frequentar a reunião de oração como se fosse um churrasco ou um jogo de futebol, não com relação à falta de cerimônia e reverência, mas porque é algo em que você tem prazer.
Em suma, entreguem a força da sua juventude à glória do Deus Único e verdadeiro. Usem a força que Deus lhes deu na direção que Deus lhes deu.
Se o avivamento vai acontecer agora ou não, não temos como saber. Mas como a Verdade disse: Não vos pertence saber os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder. (At 1.7). O que pertence a nós saber é que o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre (I Jo 2.17).
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