O problema que está diante de nós agora é a tradução da palavra de Deus para a língua do povo. É uma questão importante, pois cremos que:
2- As línguas todas foram, de alguma forma, criadas por Deus quando Deus confundiu as línguas dos povos em Babel.
3- Deus está interessado em preservar a diversidade de línguas, uma vez que Ele comprou com seu sangue homens de todas as línguas, como disse o Apóstolo São João, e que o Espírito Santo ensinou os santos a falarem das grandezas de Deus em várias línguas no Pentecostes.
4- O trabalho de tradução da mensagem é inferido do fato de que os primeiros missionários, representados principalmente pelo Apóstolo São Paulo, pregaram em grego, não em hebraico, e que todos os livros do Novo Testamento foram escritos em grego, não em hebraico.
5- Tudo isso garante que os textos escritos pelos profetas e apóstolos podem ser traduzidos em qualquer língua humana.
6- Mas tudo isso não garante que as traduções de fato feitas sejam tão inspiradas e infalíveis como aquelas escritas pelos profetas e apóstolos.
As Escrituras originais são inspiradas e infalíveis. Isso é glorioso, porque nos mostra a graça e a condescendência de Deus em nos dar sua palavra. Mas sugere pelo menos dois problemas que temos de resolver: o problema dos originais e o problema das traduções. Não menciono o problema do cânon porque é assunto para outro momento. E também não pretendo tratar dos originais neste momento. Agora quero tratar apenas da tradução e nada mais.
Quero tratar desse assunto por causa de um ponto interessante que identifiquei no Evangelho de São Lucas, 11,41.
Abaixo transcrevo o texto em grego que Lucas escreveu e uma tradução palavra por palavra em português:
πλὴν τὰ ἐνόντα δότε ἐλεημοσύνην καὶ ἰδού, πάντα καθαρὰ ὑμῖν ἐστιν
Antes do que está dentro dai esmola e eis que tudo limpo para vós será
Agora, vejamos algumas traduções desse mesmo texto em nossas Bíblias em português:
ARC:
Dai, antes, esmola do que tiverdes, e eis que tudo vos será limpo.
NAA:
Mas deem como esmola o que está dentro do copo e do prato, e tudo lhes será limpo.
São duas traduções boas. Baseadas na tradução primorosa e tradicional de Almeida. A diferença entre elas é que a primeira se propõe a fazer uma tradução de acordo com o princípio de equivalência formal, isto é, traduzir palavra por palavra na medida do possível. A segunda tradução, por sua vez, está mais aberta a fazer uma tradução por equivalência dinâmica, isto é, traduzir ideia por ideia. As duas são baseadas no mesmo texto grego (não há variantes importantes aqui). Mas os tradutores estão discordando com relação a como traduzir uma palavra do grego. No caso, a palavra ἐνόντα.
A palavra em si não é difícil de traduzir. Ela significa "o que está dentro". Mas nenhum dos tradutores ousou traduzir exatamente o que a palavra significa, mesmo na tradução que seria por equivalência formal, a ARC. De fato, a palavra em questão não significa "o que tiverdes".
A segunda tradução, a NAA, tenta preservar o sentido original da palavra e traduz "o que está dentro". Mas não aceita simplesmente colocar o significado da palavra ali, seco, sem uma explicação. O tradutor pensa que está faltando algo para dar sentido à frase e completa aquilo que pensa estar faltando nas palavras de Jesus acrescentando "o que está dentro do copo e do prato".
Por que isso é importante? A questão é que se Jesus mandou dar esmola "do que está dentro" isso dá um sentido muito mais espiritual e abrangente para a palavra esmola do que o que se costuma imaginar. Vejamos o contexto em que essa ordem do Nosso Senhor Jesus Cristo aparece:
E, estando ele ainda falando, rogou-lhe um fariseu que fosse jantar com ele; e, entrando, assentou-se à mesa. Mas o fariseu admirou-se, vendo que se não lavara antes do jantar. E o Senhor lhe disse: Agora, vós, fariseus, limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e maldade. Loucos! O que fez o exterior não fez também o interior? Dai, antes, esmola do que tiverdes, e eis que tudo vos será limpo. Mas ai de vós, fariseus, que dizimais a hortelã, e a arruda, e toda hortaliça e desprezais o Juízo e o amor de Deus! Importava fazer essas coisas e não deixar as outras.
LUCAS 11:37-42 RC60DO
Jesus não parece preocupado com o que está dentro do copo e do prato que estão na mesa do fariseu. Jesus está se referindo ao que está dentro do copo e do prato que são o corpo do fariseu. É o interior do corpo do fariseu, o seu ser invisível, a sua alma que está suja de pecado e precisa ser limpa. Se entendermos que primeiro Jesus fez o paralelo entre o interior do copo e do prato e a alma do homem e depois repreendeu o fariseu por limpar apenas o seu exterior mas não purificar a sua alma, então poderemos entender mais claramente o versículo 41 que é o nosso assunto.
A esmola que faz com que tudo seja limpo não é a mera distribuição de dinheiro. É de interpretações assim que surgem erros nefastos como os dos papistas que vendiam indulgências na idade média, os dos comunistas que limpam as suas consciências sujas dos terríveis crimes que cometem distribuindo o que sobra do dinheiro que roubam, e os dos meta-capitalistas que distribuem dinheiro naquilo que dizem ser caridade, enquanto enganam e escravizam os seus semelhantes.
Tanto é assim que Jesus imediatamente previne o erro de pensar que dar dinheiro purifica dos pecados quando diz aos fariseus no versículo seguinte: Mas ai de vós, fariseus, que dizimais a hortelã, e a arruda, e toda hortaliça e desprezais o Juízo e o amor de Deus! Importava fazer essas coisas e não deixar as outras.
A esmola do que está dentro é mais do que dinheiro. É amor, é justiça. É amor à justiça. Jesus não diz que devemos então ser avarentos bem educados. Devemos sim ajudar os pobres naquilo que estiver ao nosso alcance. Mas, sem amor a Deus, sem amor ao próximo, é impossível. Sem dar a esmola daquilo que está dentro, daquilo que brota de um coração que ama a Deus, que está arrependido de seus pecados, que está partido pelos pecados, não há valor nem diferença entre nós e os fariseus. A esmola, nesse caso, seria uma tentativa fútil de comprar o perdão de Deus, que não está à venda.
Nenhuma tradução é perfeita. Infelizmente. Gostaria eu que pelo menos uma fosse. Mas a inspiração do Espírito não inclui os tradutores. E, mesmo assim, verdade é que com um pouco de boa vontade e de boa exegese poderíamos entender o texto em qualquer uma das duas traduções e chegar a essas conclusões que chegamos olhando apenas para o português. Mas isso custaria um pouco mais de trabalho e esforço, porque teríamos que tirar algumas camadas de fumaça que estavam sobre o texto.
O segredo, nesses casos, é o contexto. Aliás, o segredo é sempre o contexto. Nenhuma palavra tem significado sem sua frase. E o significado de uma frase é muito mais claro quando a lemos em um parágrafo. E um parágrafo revela muito mais conteúdo quando está em um capítulo. E assim por diante.
E, embora seja verdade que nenhuma tradução é perfeita, isso não significa que não existam traduções melhores e piores. E é claro que existem aquelas coisas que não são realmente traduções, mas paráfrases, quando não tão ruins, e aquelas outras coisas que são blasfêmias até.
Eu não faria um ranking de traduções mas eu colocaria as traduções em quatro classes de acordo com o princípio de tradução utilizado
1o. Equivalência formal: ARC, ACF, ARA
2o. Equivalência dinâmica: NVI, NAA, Jerusalém
3o. Paráfrase: NTLH, VIVA
4o. Sacrilégio: Mensagem
Coloco a "Mensagem" na classe de sacrilégio porque não é a Bíblia. Pode ter bastante verdade e coisa boa. Se ela se apresentasse como um comentário, não teria grandes problemas. Mas nesse caso provavelmente também não venderia muito. Então ela é apresentada como uma versão da Bíblia, como uma tradução. Mas não é. Não é uma tradução da palavra de Deus. É o pensamento de um homem que apresenta a sua opinião como se fosse a Bíblia. Em que isso é diferente da ideia papista ainda está para ser demonstrado. E, se isso, meus irmãos, não for sacrilégio, não sei o que mais pode ser.
O fato é que somos muito abençoados por ter várias traduções da Bíblia em nossa língua. Temos várias sociedades bíblicas e outras instituições interessadas em traduzir a Bíblia para o português. E temos acesso a textos gregos diversos também. Dicionários, gramáticas em abundância e uma quantidade de informações e ferramentas grandiosa à distância de um clique, na maior parte gratuita.
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