É comum ouvirmos que as vestes litúrgicas usadas na tradição romana, ou em outras tradições, como a grega e a anglicana, estão de alguma forma ligadas às vestes dos sacerdotes da antiga aliança. Por isso os bispos usariam mitras, porque os sumo-sacerdotes levitas usavam. Por isso eles usariam estola e sobrepeliz, etc.
No entanto, historicamente isso não parece ser o caso. A FASBAM, papista, publicou um texto em seu site oficial que desmente e, na verdade, refuta essa teoria como indigna do uso que a igreja faz das vestes litúrgicas. O texto está dividido em três partes e o leitor pode conferir por si mesmo aqui, aqui e aqui. Esses textos parecem ser a tradução deste artigo.
Em resumo do que se diz nos artigos mencionados, a origem de cada veste utilizada na liturgia da igreja romana pode ser traçada até algum oficial da corte romana. Eram roupas de juízes e altos funcionários públicos que tinham muita autoridade na sociedade. O clero da igreja se apropriou dessas vestes como símbolos de autoridade e ressignificou seu uso para apontar para a autoridade e dignidade celestes, muito acima de todas as autoridades terrenas.
Nesse caso, podemos tirar algumas conclusões que parecem ser bastante convincentes. 1o. Qualquer semelhança entre as vestes do clero e as vestes do sacerdote levita, é mera coincidência, embora possa talvez ser providencial. A batina, a sobrepeliz, a estola, a mitra, não são vestidas pelo sacerdote cristão como se ele ocupasse a posição que o levita filho de Arão um dia ocupou. Ele veste tais coisas como um representante da autoridade celeste, sim, mas ocupando a posição como que do oficial público em matérias espirituais.
2o. O clero evangélico seguiu, basicamente, a mesma regra. Apenas o oficial público, a autoridade que forneceu o modelo de vestimenta para o clero não é a autoridade da corte romana. Juízes, presidentes, ministros, parlamentares e outras autoridades do nosso tempo se vestem não mais de túnica e estola, mas de terno e gravata. Os ministros do evangelho usam o mesmo tipo de vestimenta das autoridades civis atuais pela mesma razão que os ministros do evangelho de eras passadas usaram as vestes das autoridades civis de suas respectivas épocas, qual seja, honrar a autoridade e a glória de Cristo.
3o. O uso dos paramentos litúrgicos é uma evolução histórica que não tem base nos apóstolos, na tradição apostólica, nas Escrituras. Não é razoável acreditar que os apóstolos usavam o mesmo tipo de túnica, estola, sobrepeliz e mitra que os bispos de hoje utilizam. É fato que eles não usavam o mesmo tipo de roupa que os ministros evangélicos utilizam hoje. Mas com certeza também não utilizavam o tipo de veste que os papistas usam hoje.
4o. O uso de paramentos litúrgicos tem suas vantagens e desvantagens e, por isso, deve ser avaliado conforme a ocasião. Este é um assunto que merece o título de adiáfora, coisas sobre as quais a concordância não é necessária para a salvação, que não são obrigatórias nem proibidas. O ministro evangélico não é menos herdeiro das promessas de Deus ao ministério cristão por não usar as vestes que os ministros do evangelho usaram no medievo.
5o. Não é obrigatório. Não é proibido. Mas não é inútil. As vestes são uma forma de linguagem. E os ministros do evangelho comunicam algo sobre Deus, sobre Cristo, sobre a igreja, sobre seu papel no mundo, sobre a origem e propósito de sua atividade, pela forma como se trajam.
6o. Há um conteúdo teológico no raciocínio que levou os ministros do evangelho de diversas eras a escolher as vestes dos oficiais públicos como modelo para suas próprias vestes. O raciocínio é o de que Cristo reina hoje e a igreja é uma manifestação terrena desse reino e dessa autoridade.
7o. O desprezo moderno pelo uso de qualquer vestimenta que indique que o ministro do evangelho representa algum tipo de autoridade ou mesmo seriedade reflete o desprezo generalizado pelo ministério cristão.
O pastor deve se vestir "à paisana" para não correr o risco de aparentar que ele acredita que representa qualquer autoridade ou poder maior do que ele mesmo, ou seja, não se acredita que o pastor represente qualquer coisa. Nem mesmo o terno e a gravata são aceitáveis porque criariam algum tipo de distância hierárquica e fariam parecer que o pastor realmente tem alguma autoridade.
Então ele deve vestir roupas de praia, ou de festa havaiana. Até mesmo roupas de balada. Sempre que possível usar chinelos. Vai que alguém comece a pensar que o pastor é um ministro do reino dos céus!
Se alguém não percebeu, tinha ironia na última frase.
O fato é que o pastor é um servo de Cristo. Ele representa a Cristo em alguma medida. E Cristo é a autoridade máxima do universo. A dignidade nas vestimentas do ministro evangélico deve ser pensada para reproduzir, ao mesmo tempo, a humildade e a autoridade do Rei de todas as coisas.
Um pouco de sal deve ser usado, como é a praxe cristã. Roupas que mostrem seriedade, dignidade e respeito são a regra. Paramentos litúrgicos podem ser usados. Terno e gravata podem ser usados. Camisa com gola clerical pode ser usada. Ou alguma forma de se vestir que indique essa dignidade, seriedade e respeito. Tudo sempre levando em consideração mais a glória de Cristo do que o apetite pessoal.
A glória de Cristo parece ter sido a motivação dos antigos ministros do evangelho em todas as eras. Seja ela a nossa motivação hoje.
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