O Caminho Para A Cura

Neste artigo, tratarei do pecado como uma doença. O pecado, nas Escrituras, possui várias características de uma enfermidade: há um sentido em que nascemos com ele, o pecado original, que nos debilita, enfraquece nossa capacidade de julgamento, diminui nossa inteligência, causa-nos dores, perdas e tristezas, e, muitas vezes, doenças físicas. Além disso, em algumas passagens bíblicas, a solução para o pecado é chamada de cura, o que sugere que o Espírito Santo também lida com o pecado em vários aspectos, como uma doença.

Por exemplo, Nosso Senhor Jesus Cristo fala sobre o povo de Israel, cujos corações estavam endurecidos, e, por isso, não se convertiam e não eram curados (Mateus 13:15). Dessa forma, Nosso Senhor implica que sua conversão e o perdão dos seus pecados seriam a cura de uma enfermidade espiritual, que era o mal que eles praticavam e, infelizmente, desejavam continuar praticando. Isso, de forma alguma, elimina a responsabilidade moral dos pecadores.

Quando digo, e creio que o digo biblicamente, que o pecado é uma doença, não quero dizer que ele seja uma enfermidade do mesmo tipo que qualquer outra que uma pessoa possa ter, como uma mutação genética, uma gripe ou um membro decepado. Há muitas enfermidades físicas que uma pessoa pode ter que não foram causadas por qualquer escolha ou comportamento dela. O pecado, por sua vez, existe de duas formas: o pecado original, que é herdado, e o pecado atual, que é escolhido e praticado.

Sobre o pecado original, a escolha aconteceu, mas não foi nossa, e sim de nossos pais no Éden, especialmente de nosso pai Adão. Por causa da escolha que ele fez de desobedecer a uma ordem clara dada por Deus, sobre a qual não tinha nenhuma necessidade de desobedecer, já nascemos com uma herança de pecado que nos inclina a querer desobedecer, desonrar e nos afastar de Deus (Romanos 5:12). Dessa forma, o pecado original pode ser facilmente identificado como uma doença espiritualmente herdada e factualmente experimentada na vida de cada ser humano.

O fato, porém, é que, além do pecado original herdado, cuja escolha foi feita por outra pessoa em outra época, temos também os nossos próprios pecados atuais, que são mais de um, e que são as nossas próprias escolhas de desobedecer, desonrar e nos afastar de Deus. Esses pecados atuais também podem ser chamados de doenças, na medida em que se tornam vícios e se apegam ao nosso caráter, moldando quem nós somos e como nos comportamos no mundo. São Paulo diz que esses são os nossos membros que estão sobre a terra e que precisam ser mortificados. Na lista desses membros, ele inclui coisas como a fornicação, a impureza e a avareza, além de vis concupiscências e afeições desordenadas (Colossenses 3:5).

De toda forma, o pecado sempre implica em culpa. E a culpa, assim como o pecado, pode ser distinguida em duas formas: a culpa objetiva, que é o fato de que nós somos os autores dos males que praticamos e somos responsáveis objetivamente por eles, e a culpa subjetiva, que é o sentimento de culpa derivado do fato de que envergonhamos a nós mesmos e destruímos a nós mesmos ao praticarmos os males que desejamos. As duas culpas são resultado do mesmo pecado, e não podemos perder de vista nenhuma delas. Somos objetivamente culpados de nossos pecados, ainda que não nos sintamos assim.

Outra definição de pecado que encontramos na Bíblia, e uma na verdade muito mais específica, é que o pecado é a transgressão da lei de Deus (1 João 3:4). Simples assim: alguém age contra a lei de Deus, ainda que na sua mente julgue estar fazendo algo bom, mas está, de fato, pecando, pois o que define o bem e o mal é o caráter de Deus. O que nos coloca a favor ou contra esse bem é a obediência ou desobediência à lei de Deus. Ainda que o pecado seja uma doença, ele continua sendo culpa nossa, objetivamente falando. De fato, por causa do pecado original, nascemos inclinados a pecar e não podemos parar de pecar ou deixar de pecar sem a ajuda de Deus. E isso, por si só, já constitui a doença do pecado.

Estamos de tal maneira inclinados ao pecado que, se Deus não fizer um milagre e operar em nós de forma sobrenatural, não podemos, por nossas próprias forças, vencer essas inclinações pecaminosas que constantemente se multiplicam dentro de nós, como um câncer maligno e destrutivo. Sem a intervenção divina, essa doença nos leva cada vez mais próximo da morte eterna, ao mesmo tempo em que nos sentimos cada vez mais mortos por dentro, enquanto ainda estamos vivos (Romanos 7:24). Por isso, o primeiro passo para a cura é a total entrega a Deus. Não existe nenhuma possibilidade meramente humana de vencer ou dominar o pecado em suas inclinações e práticas interiores do coração. De fato, o homem, sem a graça de Deus, está morto, escravizado pelos seus próprios desejos. Justamente porque faz o que quer é que é escravo. Porque o que ele quer é o pecado, o mal, a morte e a destruição. Somente pela ajuda do Espírito Santo o homem pode ser liberto do pecado, e isso somente por causa do sacrifício de Cristo Jesus, que morreu em nosso lugar na cruz sangrenta do Calvário. Não existe cura sem Cristo, porque não existe perdão sem Cristo (1 Pedro 2:24). Isso nos leva a um segundo ponto.

Nossa culpa pelo pecado é objetiva, pelo fato de que o praticamos, mas também é subjetiva, isto é, o sentimento interno de que somos culpados pelo mal que desejamos e praticamos. E isso não nos ajuda a pecar menos. Pelo contrário, essa culpa nos lança ainda mais profundamente em buracos cada vez mais fundos e escuros de maldade. É fácil observar esse caminho sendo percorrido publicamente pelas hordas de pessoas que se envolveram com o uso de drogas pesadas. Como elas, cada vez mais presas pelos laços de suas escolhas ruins, chegam a lugares tão escuros e escorregadios que perdem a capacidade de discernir a própria escolha. E quanto mais miseráveis e culpadas se sentem pela destruição que a droga está causando em suas vidas, tanto mais usam drogas para tentar esquecer e aliviar a própria culpa.

Contudo, é ingênuo pensar que apenas aqueles que estão publicamente destruídos pelo pecado estão realmente destruídos. A destruição causada pelo pecado pode muito bem acontecer escondida aos olhos de todos, até mesmo da pessoa que está sendo destruída. Uma pessoa pode parecer muito bem aos olhos de todos, até mesmo dentro da igreja, e, no entanto, estar sendo corroída por dentro, silenciosamente, por vícios e pecados que alimenta constantemente, dos quais nunca se arrepende e nunca é curada. Voltemos àquela lista feita pelo apóstolo São Paulo a respeito dos nossos membros que estão sobre a terra. Ela tem cinco elementos: fornicação, impureza, afeição desordenada, vil concupiscência e avareza (Colossenses 3:5). Os quatro primeiros elementos são de natureza sexual, mas só um deles pode ser visto a olho nu. Alguém pode muito bem estar preso em impureza, afeição desordenada e vil concupiscência, sem nunca ser notado por isso. Esses pecados são todos coisas que podem ser praticadas no oculto da mente e do coração, e são altamente destrutivos. O último item da lista é a avareza, que pode se manifestar a olho nu e ser facilmente detectada em alguns casos, mas que também pode se vestir de coisas boas e bonitas e passar despercebida por muito tempo, consumindo e destruindo a pessoa por dentro, sem que ninguém perceba.

De fato, essas cinco coisas são os membros do pecado, mas, no mesmo texto, alguns versículos depois, o apóstolo faz outra lista de cinco coisas que devem ser despojadas ou despidas. Elas são: ira, cólera, maldade, maledicência e palavras torpes da nossa boca (Colossenses 3:8). O fato de que o apóstolo usa a palavra "despir" e não a palavra "mortificar" para dizer o que devemos fazer com essas outras cinco coisas nos indica que a função delas parece ser encobrir as primeiras cinco coisas. Isso significa que muito da ira, cólera, maledicência e das palavras torpes são manifestações da carne usadas pelas pessoas para encobrir coisas muito piores, das quais elas têm vergonha, que estão dentro delas as corroendo e destruindo, tais como vis concupiscências, afeições desordenadas, impurezas e avareza.

Embora o diabo possa ficar bastante satisfeito com a destruição pública da vida de alguém, como quando ela é fisgada por pecados como o alcoolismo ou a drogadição, ele também deve se contentar com aquelas pessoas que são destruídas em segredo pelos pecados ocultos que ele semeia constantemente em suas mentes e corações, e que são muitas vezes cobertos por um verniz de justiça própria, que na verdade não passa de ira e cólera. Talvez por isso o apóstolo se preocupe tanto em falar sobre as palavras torpes na nossa boca, que em algumas traduções são chamadas de "linguagem obscena" (Colossenses 3:8). É muito fácil para alguém dizer que todos os seus pecados não passam de alguns pequenos palavrões, mas o apóstolo, pelo Espírito Santo, enxerga mais fundo e vê que não se trata apenas de algumas palavras obscenas, mas de uma cobertura para coisas muito vergonhosas ocultas no coração.

Despir essas coisas usadas para encobrir os pecados mais ocultos ajuda o pecador a se dar conta de sua real miséria. Por isso, o apóstolo São Paulo enfatiza a importância da verdade, ou melhor, de dizer a verdade: "Não mintais uns aos outros" (Colossenses 3:9). Um compromisso profundo com a verdade, a aceitação de se colocar em um lugar de vulnerabilidade, mas ser honesto mesmo assim, e a aceitação do custo que isso possa ter têm um efeito muito importante no processo de cura da doença chamada pecado. O pecado prospera muito na escuridão, mas definha sob a luz da verdade.

Em outra parte, um apóstolo também disse algo sobre o valor inestimável da confissão: "Confessai os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros para serdes curados" (Tiago 5:16). A confissão nada mais é do que um exercício na verdade, um compromisso em dizer o que realmente está acontecendo. Sozinha, ela não é capaz de resolver o problema, mas, quando aparece associada à oração, tem um efeito muito poderoso, porque aquele que confessa e ora é curado. Em outra parte, também se diz que "aquele que confessa e deixa alcança misericórdia" (Provérbios 28:13). A confissão sincera, associada à oração e ao arrependimento, é capaz de gerar um efeito muito poderoso na vida de alguém. Nunca por si só, é claro, já que a cura é sempre algo feito por Jesus por meio do Espírito Santo.

Mas do que estamos falando aqui? Tudo isso também é obra do próprio Espírito Santo. O arrependimento e a fé são dádivas de Deus, operadas pelo Espírito Santo na vida das pessoas. Nenhum pecador tem a capacidade em si mesmo de confessar, se arrepender, orar, ou crer. Tudo isso é dádiva do Espírito Santo, operando em pecadores indignos e incapazes. Por isso, se alguém abre o coração para confessar os seus pecados, admitir as suas culpas, receber oração e se arrepender, sabemos que estamos diante de alguém sobre quem o Espírito Santo está agindo e operando.

Mas, se alguém sente que sua fé é pouca, que o seu medo de dizer a verdade é grande, que sua força para orar é pequena, e que sua tenacidade para se arrepender, para parar de praticar aquelas coisas que antes praticava, é mínima, por todos esses motivos deve fazer como o pai daquele menino que estava endemoniado e, de joelhos, pedir a Jesus, dizendo: "Eu creio, ajuda-me na minha incredulidade" (Marcos 9:24).

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