No evangelho de São Lucas, temos um episódio muito interessante: Levi convidou Jesus para um banquete em sua casa. Levi era um publicano, um cobrador de impostos para os romanos. Ele era visto pelos judeus com maus olhos por causa disso. Mas Jesus o chamou para ser seu discípulo (Lc 5.27-28). Ele ficou muito feliz com o convite, seguiu a Jesus e quis dar um banquete para o Senhor. Ele também parece ter querido aproximar Jesus de seus amigos de profissão, pois convidou muitos publicanos para participarem com eles do banquete (Lc 5.29). Jesus aceitou o convite e foi com os seus discípulos para a casa de Levi, sentando-se à mesa com muitos publicanos e pessoas malquistas pelos judeus (Lc 5.30).
Por causa disso, alguns judeus importantes e vistos pelo povo como devotos questionaram Jesus sobre a razão de Ele comer com pecadores. Jesus respondeu que o havia feito porque tais pessoas eram doentes e Ele era médico: "São os doentes que precisam de médico, não os sãos" (Lc 5.31-32). Contudo, em seguida, eles também questionaram Jesus a respeito da razão de seus discípulos não jejuarem como os discípulos dos fariseus e de João Batista (Lc 5.33). Jesus, então, respondeu que seus discípulos não jejuavam porque Ele ainda estava com eles. "Dias virão, porém, em que o noivo lhes será tirado; nesses dias, jejuarão" (Lc 5.34-35).
Esse seria um resumo justo do que lemos no capítulo 5 do evangelho de São Lucas. Porém, o final ainda não foi contado. Jesus prossegue, não mais meramente respondendo à pergunta de alguém, mas propondo uma explicação aparentemente estranha do que está realmente acontecendo. Nosso Senhor usa a metáfora do vinho e do odre: "Ninguém coloca vinho novo em odres velhos; se o fizer, o vinho novo romperá os odres, e se perderá tanto o vinho quanto os odres. Mas vinho novo deve ser colocado em odres novos. E ninguém, depois de beber o vinho velho, prefere o novo, pois diz: O velho é melhor" (Lc 5.36-39).
O que têm vinhos e odres a ver com o fato de Jesus jantar na casa de um publicano ou com seus discípulos não jejuarem enquanto o Senhor está com eles? O contexto não nos permite pensar em outra coisa a não ser no fato de que o problema que aqueles fariseus estavam enfrentando com Jesus era que a doutrina de Jesus era um vinho novo, e eles eram odres velhos. O vinho velho que eles carregavam era sua tradição. O vinho novo que Jesus oferecia era o Seu evangelho. Podemos, na verdade, pensar que aqui Jesus está falando a eles mais ou menos o mesmo que falou a Nicodemos no evangelho de São João: "Necessário vos é nascer de novo" (Jo 3.7).
Seria realmente muito edificante meditarmos sobre o vinho novo do evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Também poderíamos nos demorar sobre como o Novo Nascimento é absolutamente necessário para receber tantas bênçãos e a vida eterna que só o evangelho de nosso Senhor pode nos dar. Mas, neste texto, daremos mais atenção à questão da tradição.
O apego dos fariseus à sua tradição tornou sua posição diante de Deus bastante complicada. O fato é que eles estavam tentando entender algo realmente bom e praticar algo realmente verdadeiro. Nosso Senhor, em outro lugar, disse que "eles se assentavam na cadeira de Moisés" (Mt 23.2). Os fariseus eram mestres da lei, isto é, da lei de Deus. Não eram simples professores de direito, mas pastores de Israel. Na busca por agradar a Deus através da lei, os fariseus se perderam em interpretações erradas do que a lei significava e do que Deus queria que eles fizessem. E a perdição foi tal que, quando todas as profecias do Antigo Testamento começaram a se cumprir diante de seus olhos na vida de Jesus Cristo, eles não conseguiram perceber (Jo 5.39-40).
Jesus nos explica que o principal problema era que suas interpretações estavam baseadas na tradição dos homens e não na palavra de Deus registrada nas Escrituras Sagradas (Mc 7.8). Agora, alguém pode pensar que, por causa disso, Nosso Senhor era contra as tradições per se. Contudo, isto não parece ser verdade, até porque Nosso Senhor cumpriu algumas tradições que não estavam necessariamente nas Escrituras. A frequência às sinagogas (Lc 4.16) e a Festa da Dedicação (Jo 10.22) são coisas que Jesus praticava e que eram parte da tradição judaica, não das Escrituras do Antigo Testamento. Jesus não era, portanto, contra as tradições de forma peremptória. Mas Jesus claramente era contra tradições que distorciam ou contrariavam o sentido da palavra de Deus (Mc 7.9s).
Se Jesus tratava a tradição dessa forma, não creio que devamos tratá-la de outra maneira. Temos de aprender com o Mestre. Existem, então, dois comportamentos possíveis em relação à tradição que são completamente errados. O primeiro é agir como os fariseus: colocar a tradição acima das Escrituras e submeter a palavra de Deus ao crivo da tradição. Não testar as tradições conforme as Escrituras e não desobedecer a elas quando isso for necessário para cumprir a vontade do Senhor. O segundo comportamento errado é desprezar completamente as tradições e fingir que elas não existem. Se Nosso Senhor não agiu assim, não creio que tenhamos permissão para agir dessa forma.
Quando pensamos em exemplos modernos desses dois erros, é comum atribuirmos o primeiro erro aos romanistas e o segundo aos progressistas. No entanto, embora isso seja verdade, temos que admitir que qualquer grupo pode cometer qualquer um dos dois erros. E, este é um erro que os evangélicos podem cometer com facilidade. E os evangélicos, ao cometerem esses erros, frequentemente tendem ao romanismo ou ao progressismo. Portanto, temos que examinar a nós mesmos e ver como podemos cometer tais erros e como, de fato, já o fizemos várias vezes no passado e no presente.
Dentro do grupo maior chamado Igreja Evangélica, podemos distinguir dois grupos menores: aqueles que se apegam às tradições evangélicas históricas — quais sejam os documentos da Reforma, suas formas, definições e liturgias — e aqueles que detestam a ideia de tradição e pensam que todos os documentos da história da Igreja devem ser rejeitados em prol de interpretações novas, geralmente particulares e não compartilhadas pelos nossos pais na fé.
O segundo grupo é muito amplo e variado, justamente porque, ao não se apegar a nenhuma tradição, perde o senso de unidade histórica da igreja e cria muitas posições diversas e contraditórias. Infelizmente, o segundo grupo tende muitas vezes ao liberalismo, e, por isso, ao progressismo, ou a um tipo de movimento carismático que não está fundado em bases sólidas das Escrituras, mas que é movido pela emoção de um líder influente ou de uma experiência coletiva extática, pesadamente emocional.
Esse tipo de abordagem à tradição é muito perigoso. A igreja que trata a tradição dessa forma está exposta a riscos terríveis, inclusive à apostasia e à infiltração por todo tipo de falsa doutrina e engano diabólico. Os indivíduos dentro desses grupos ficam sem proteção, expostos ao bel-prazer do líder, com suas consciências presas à interpretação errante e volúvel de um só.
O primeiro grupo, por outro lado, embora se gabe de evitar os problemas enfrentados por quem rejeita completamente a tradição, não está isento de seus próprios problemas. Ele cria situações doentias em que as confissões históricas são citadas como se fossem versículos bíblicos. Possíveis erros na tradição escolhida não são examinados à luz das Escrituras, mas defendidos sem questionamentos ou explicações adicionais.
Contudo, o padrão estabelecido pelo comportamento do Senhor Jesus Cristo demonstra que não se deve agir assim. Temos de receber as tradições com amor e gratidão pelos que se esforçaram para preservar a verdade do evangelho que nos foi entregue por Deus (Jd 3). Ao mesmo tempo, temos que entender que nossa dívida final é com o próprio Deus e com a Sua palavra. Preservaremos melhor as tradições se sempre as examinarmos à luz das Escrituras e se estivermos dispostos a interpretá-las e até mesmo corrigi-las quando percebermos que elas não foram tão fiéis às Escrituras quanto gostariam de ter sido.
Por causa disso, alguns judeus importantes e vistos pelo povo como devotos questionaram Jesus sobre a razão de Ele comer com pecadores. Jesus respondeu que o havia feito porque tais pessoas eram doentes e Ele era médico: "São os doentes que precisam de médico, não os sãos" (Lc 5.31-32). Contudo, em seguida, eles também questionaram Jesus a respeito da razão de seus discípulos não jejuarem como os discípulos dos fariseus e de João Batista (Lc 5.33). Jesus, então, respondeu que seus discípulos não jejuavam porque Ele ainda estava com eles. "Dias virão, porém, em que o noivo lhes será tirado; nesses dias, jejuarão" (Lc 5.34-35).
Esse seria um resumo justo do que lemos no capítulo 5 do evangelho de São Lucas. Porém, o final ainda não foi contado. Jesus prossegue, não mais meramente respondendo à pergunta de alguém, mas propondo uma explicação aparentemente estranha do que está realmente acontecendo. Nosso Senhor usa a metáfora do vinho e do odre: "Ninguém coloca vinho novo em odres velhos; se o fizer, o vinho novo romperá os odres, e se perderá tanto o vinho quanto os odres. Mas vinho novo deve ser colocado em odres novos. E ninguém, depois de beber o vinho velho, prefere o novo, pois diz: O velho é melhor" (Lc 5.36-39).
O que têm vinhos e odres a ver com o fato de Jesus jantar na casa de um publicano ou com seus discípulos não jejuarem enquanto o Senhor está com eles? O contexto não nos permite pensar em outra coisa a não ser no fato de que o problema que aqueles fariseus estavam enfrentando com Jesus era que a doutrina de Jesus era um vinho novo, e eles eram odres velhos. O vinho velho que eles carregavam era sua tradição. O vinho novo que Jesus oferecia era o Seu evangelho. Podemos, na verdade, pensar que aqui Jesus está falando a eles mais ou menos o mesmo que falou a Nicodemos no evangelho de São João: "Necessário vos é nascer de novo" (Jo 3.7).
Seria realmente muito edificante meditarmos sobre o vinho novo do evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Também poderíamos nos demorar sobre como o Novo Nascimento é absolutamente necessário para receber tantas bênçãos e a vida eterna que só o evangelho de nosso Senhor pode nos dar. Mas, neste texto, daremos mais atenção à questão da tradição.
O apego dos fariseus à sua tradição tornou sua posição diante de Deus bastante complicada. O fato é que eles estavam tentando entender algo realmente bom e praticar algo realmente verdadeiro. Nosso Senhor, em outro lugar, disse que "eles se assentavam na cadeira de Moisés" (Mt 23.2). Os fariseus eram mestres da lei, isto é, da lei de Deus. Não eram simples professores de direito, mas pastores de Israel. Na busca por agradar a Deus através da lei, os fariseus se perderam em interpretações erradas do que a lei significava e do que Deus queria que eles fizessem. E a perdição foi tal que, quando todas as profecias do Antigo Testamento começaram a se cumprir diante de seus olhos na vida de Jesus Cristo, eles não conseguiram perceber (Jo 5.39-40).
Jesus nos explica que o principal problema era que suas interpretações estavam baseadas na tradição dos homens e não na palavra de Deus registrada nas Escrituras Sagradas (Mc 7.8). Agora, alguém pode pensar que, por causa disso, Nosso Senhor era contra as tradições per se. Contudo, isto não parece ser verdade, até porque Nosso Senhor cumpriu algumas tradições que não estavam necessariamente nas Escrituras. A frequência às sinagogas (Lc 4.16) e a Festa da Dedicação (Jo 10.22) são coisas que Jesus praticava e que eram parte da tradição judaica, não das Escrituras do Antigo Testamento. Jesus não era, portanto, contra as tradições de forma peremptória. Mas Jesus claramente era contra tradições que distorciam ou contrariavam o sentido da palavra de Deus (Mc 7.9s).
Se Jesus tratava a tradição dessa forma, não creio que devamos tratá-la de outra maneira. Temos de aprender com o Mestre. Existem, então, dois comportamentos possíveis em relação à tradição que são completamente errados. O primeiro é agir como os fariseus: colocar a tradição acima das Escrituras e submeter a palavra de Deus ao crivo da tradição. Não testar as tradições conforme as Escrituras e não desobedecer a elas quando isso for necessário para cumprir a vontade do Senhor. O segundo comportamento errado é desprezar completamente as tradições e fingir que elas não existem. Se Nosso Senhor não agiu assim, não creio que tenhamos permissão para agir dessa forma.
Quando pensamos em exemplos modernos desses dois erros, é comum atribuirmos o primeiro erro aos romanistas e o segundo aos progressistas. No entanto, embora isso seja verdade, temos que admitir que qualquer grupo pode cometer qualquer um dos dois erros. E, este é um erro que os evangélicos podem cometer com facilidade. E os evangélicos, ao cometerem esses erros, frequentemente tendem ao romanismo ou ao progressismo. Portanto, temos que examinar a nós mesmos e ver como podemos cometer tais erros e como, de fato, já o fizemos várias vezes no passado e no presente.
Dentro do grupo maior chamado Igreja Evangélica, podemos distinguir dois grupos menores: aqueles que se apegam às tradições evangélicas históricas — quais sejam os documentos da Reforma, suas formas, definições e liturgias — e aqueles que detestam a ideia de tradição e pensam que todos os documentos da história da Igreja devem ser rejeitados em prol de interpretações novas, geralmente particulares e não compartilhadas pelos nossos pais na fé.
O segundo grupo é muito amplo e variado, justamente porque, ao não se apegar a nenhuma tradição, perde o senso de unidade histórica da igreja e cria muitas posições diversas e contraditórias. Infelizmente, o segundo grupo tende muitas vezes ao liberalismo, e, por isso, ao progressismo, ou a um tipo de movimento carismático que não está fundado em bases sólidas das Escrituras, mas que é movido pela emoção de um líder influente ou de uma experiência coletiva extática, pesadamente emocional.
Esse tipo de abordagem à tradição é muito perigoso. A igreja que trata a tradição dessa forma está exposta a riscos terríveis, inclusive à apostasia e à infiltração por todo tipo de falsa doutrina e engano diabólico. Os indivíduos dentro desses grupos ficam sem proteção, expostos ao bel-prazer do líder, com suas consciências presas à interpretação errante e volúvel de um só.
O primeiro grupo, por outro lado, embora se gabe de evitar os problemas enfrentados por quem rejeita completamente a tradição, não está isento de seus próprios problemas. Ele cria situações doentias em que as confissões históricas são citadas como se fossem versículos bíblicos. Possíveis erros na tradição escolhida não são examinados à luz das Escrituras, mas defendidos sem questionamentos ou explicações adicionais.
Contudo, o padrão estabelecido pelo comportamento do Senhor Jesus Cristo demonstra que não se deve agir assim. Temos de receber as tradições com amor e gratidão pelos que se esforçaram para preservar a verdade do evangelho que nos foi entregue por Deus (Jd 3). Ao mesmo tempo, temos que entender que nossa dívida final é com o próprio Deus e com a Sua palavra. Preservaremos melhor as tradições se sempre as examinarmos à luz das Escrituras e se estivermos dispostos a interpretá-las e até mesmo corrigi-las quando percebermos que elas não foram tão fiéis às Escrituras quanto gostariam de ter sido.
O vinho novo de Jesus Cristo não fica velho. E os seus odres se renovam todos os dias pela fé. Cristo, então, inaugurou um tipo de tradição que sempre se renova.
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