O governo da igreja de Cristo

 O governo da igreja de Cristo

O assunto do governo da igreja de Cristo não é dos mais fáceis de tratar. Ao longo da história da igreja, várias controvérsias emergiram a respeito deste ponto. Hoje, diversas divisões na igreja se devem a controvérsias sobre quem tem a palavra final em assuntos como disciplina de membros faltosos, alocação de recursos, escolha de estratégias, eleição de lideranças e até mesmo questões doutrinárias.


Essas divisões, na maior parte dos casos, não incluem qualquer dúvida a respeito do senhorio soberano de Cristo sobre a sua igreja. Via de regra, todas as partes envolvidas no debate concordam que Cristo é o único líder absoluto da igreja ou, pelo menos, esse é o discurso padrão. A controvérsia começa pela questão: qual estrutura de tomada de decisões foi estabelecida por Cristo em Sua Palavra e ordenada à Sua igreja?


Na maior parte dos seminários teológicos que preparam os futuros pastores evangélicos, são ensinados três modelos básicos de governo de igreja, em disputa ao longo da história. Estes são o episcopal, o presbiteral e o congregacional. Os proponentes de cada um desses modelos reivindicam ser o seu o modelo bíblico e historicamente mais antigo.


Além destes três modelos históricos de governo de igreja, hoje em dia o chamado modelo Moisés — ou modelo do pastor sênior, titular ou presidente — também está em voga. Explicaremos resumidamente cada um deles e, no fim, proporemos a nossa opinião.


Episcopalismo


O modelo episcopal de governo de igreja pode não ser realmente o modelo bíblico, mas certamente foi o modelo praticado por mais tempo na história da igreja até hoje. Se não pudermos encontrar provas bíblicas de que ele é um modelo estabelecido por Cristo, contudo, podemos encontrar evidências históricas de que ele já era praticado, de alguma forma, desde o início do segundo século e que continuou sendo praticado como o modelo predominante pelos próximos 1.400 anos, até os tempos da Reforma Protestante. Dizemos “predominante”, mas é possível que tenha sido, de fato, o único modelo praticado durante esse período.


E o que é o modelo episcopal? Trata-se de uma forma de organizar a igreja numa estrutura hierárquica que divide o povo de Deus em dois grupos: o clero e o laicado, sendo que o clero se divide em três grupos principais: bispos, presbíteros e diáconos. Nessa estrutura hierárquica, os bispos estão no topo, os presbíteros em segundo lugar, os diáconos em terceiro e, abaixo deles, o povo.


Esse seria o eixo principal da estrutura de governo da igreja em uma diocese, que nada mais é do que uma divisão territorial herdada do antigo Império Romano. Além dessa estrutura básica, outras posições surgiram na igreja, como a de arcebispo, metropolitano, Papa, cardeal etc.


A base bíblica para essa estrutura é a ideia de que Cristo colocou os Seus apóstolos sobre a igreja com autoridade para pregar, administrar o sacramento e a disciplina na igreja, transmitindo a Sua autoridade através da ordenação a sucessores, os quais são os bispos. A Grande Comissão, dada aos apóstolos em Mateus 28 — que inclui o dever de ensinar a palavra e de batizar —, além da ordem de Paulo a Timóteo para que transmitisse aquilo que havia recebido a outros (2Tm 2:2), são textos que corroboram essa posição. Além disso, a atitude de Pedro para com Ananias e Safira demonstra a autoridade que ele exercia na igreja para disciplinar membros que pecavam:


Atos 5:3-5 (ARC)  

[3] Disse, então, Pedro: “Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo e retivesses parte do preço da herdade?  

[4] Guardando-a, não ficava para ti? E, vendida, não estava em teu poder? Por que formaste este desígnio em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus.”  

[5] E, ouvindo estas palavras, Ananias caiu e expirou. Um grande temor veio sobre todos os que isto ouviram.


É notável que, aqui, Pedro, após dar a chance a Ananias de se arrepender, simplesmente pronuncia sentença. Pedro não convoca alguns presbíteros para conversar com Ananias, nem convoca uma assembleia geral da congregação de Jerusalém.


Também o que Paulo promete fazer na cidade de Corinto com os membros que pecaram exemplifica a autoridade que ele exercia como apóstolo de Cristo:


2 Coríntios 13:1-2 (ARA)  

[1] “Esta é a terceira vez que vou ter convosco. Por boca de duas ou três testemunhas, toda questão será decidida.  

[2] Já o disse anteriormente e torno a dizer, como fiz quando estive presente pela segunda vez; mas, agora, estando ausente, o digo aos que, outrora, pecaram e a todos os demais que, se outra vez pecarem, não os pouparei.”


Paulo fala em primeira pessoa — “eu não os pouparei” — sem mencionar outros presbíteros ou a igreja. Esses exemplos podem indicar que Pedro e Paulo agiram com autoridade própria por serem apóstolos. Se esse tipo de autoridade foi transmitido pelos apóstolos aos bispos, seus sucessores, então o episcopalismo faz muito sentido. São exemplos de igrejas que praticam esse modelo de governo eclesiástico hoje em dia: a igreja anglicana, algumas igrejas luteranas e metodistas.


Presbiterianismo


Este modelo, historicamente, só tomou força e forma a partir da Reforma Protestante, especialmente no filão calvinista da Reforma.


Trata-se de uma maneira de organizar a igreja relativamente semelhante ao episcopalismo, exceto que a divisão hierárquica entre bispos e presbíteros é negada. No lugar de um bispo acima dos presbíteros com autoridade sobre eles, o presbiterianismo coloca um concílio, isto é, um colegiado de presbíteros que toma as decisões finais sobre doutrina, disciplina na igreja — inclusive em relação a presbíteros faltosos — e quaisquer outros assuntos que importem à igreja de Cristo. A base bíblica deste modelo de governo de igreja encontra-se em passagens que tratam de bispos e presbíteros como sinônimos ou termos intercambiáveis (At 20:17; 28), em passagens que indicam que os presbíteros tinham autoridade para fazer ordenações de outros presbíteros (1Tm 4:14), para pregar a palavra (1Tm 5:17) e para fazer tudo o que os bispos podiam fazer, além de outras passagens que demonstram que as decisões na igreja eram tomadas de forma colegiada e não por um único bispo no topo de uma cadeia hierárquica. Deste último tipo, temos o concílio ocorrido em Jerusalém:


Atos 15:6, 22 (ARC)  

[6] “Congregaram-se, pois, os apóstolos e os anciãos para considerar este assunto.”  

[22] “Então, pareceu bem aos apóstolos e aos anciãos, com toda a igreja, eleger varões dentre eles e enviá-los com Paulo e Barnabé a Antioquia, a saber: Judas, chamado Barsabás, e Silas, varões distintos entre os irmãos.”


Aqui, nenhum apóstolo tomou a decisão sozinho, nem mesmo os apóstolos, em conjunto, tomaram a decisão sem a participação dos presbíteros. Antes, os apóstolos e os presbíteros tomaram a decisão juntos, como representantes da igreja, pois esta é citada juntamente com os apóstolos e presbíteros.


São exemplos de igrejas que adotam este modelo as igrejas presbiterianas reformadas e algumas metodistas.


Congregacionalismo


Este modelo só ganhou força historicamente após a Reforma Protestante. Nele, a igreja é organizada de forma que cada congregação local é autônoma e soberana. Não existe autoridade externa ou superior à congregação local, exceto o próprio Senhor Jesus Cristo. Em geral, essas igrejas reconhecem a existência de pastores e diáconos como funções que visam servir a congregação local, representando-a, sem, contudo, exercer autoridade sobre ela. A igreja congregada localmente é a última instância para a tomada de decisões relativas à disciplina eclesiástica, doutrina etc.


A base bíblica para este modelo encontra-se principalmente nas palavras do próprio Senhor Jesus no Evangelho:


Mateus 18:15-17 (ARC)  

[15] “Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão.”  

[16] “Mas, se não te ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que, pela boca de duas ou três testemunhas, toda palavra seja confirmada.”  

[17] “E, se não as escutar, dize-o à igreja; e, se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano.”


Aqui, o Senhor Jesus determina que haja um processo que visa conduzir o pecador ao arrependimento antes de ser excluído da igreja, sendo a própria igreja a instância final de decisão.


Além deste texto, há outro em que o apóstolo Paulo convoca a igreja de Corinto para, reunida com ele, efetuar o desligamento de um membro que estava em pecado e não havia se arrependido:


1 Coríntios 5:3-5 (ARA)  

[3] “Eu, na verdade, ainda que ausente em pessoa, mas presente em espírito, já sentenciei, como se estivesse presente, que o autor de tal infâmia seja,  

[4] em nome do Senhor Jesus, reunidos vós e o meu espírito, com o poder de Jesus, nosso Senhor,  

[5] entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no Dia do Senhor [Jesus].”


Embora Paulo fale aqui em primeira pessoa ao afirmar “sentenciei”, ele o faz considerando a reunião entre ele e a igreja de Corinto, o que pode indicar que a decisão seria tomada de forma congregacional. Igrejas batistas tradicionais, em geral, adotam esse modelo.


Modelo Moisés


Este modelo também é conhecido como modelo do pastor sênior, titular ou presidente. Não se trata de uma forma de organização da igreja com um precedente histórico firme e de longa data. Seria exagero atribuir a criação desse modelo a Chuck Smith, pastor da igreja Calvary Chapel e figura importante no Jesus Movement. No entanto, pode-se dizer que ele foi um grande popularizador e defensor desse modelo. Também é possível afirmar, com certa segurança, que, embora esse modelo não seja historicamente enraizado, ele é extremamente popular hoje em dia e é praticado em muitas igrejas, com ou sem denominação, e com ou sem o conhecimento explícito da igreja.


Na realidade, ele se tornou tão popular que, em alguns lugares, os cristãos sequer conseguem imaginar que outra forma de governar a igreja e se organizar seja possível, seja biblicamente ou pragmaticamente.


Nesse modelo, cada igreja tem um pastor principal que a governa. Qualquer outro pastor, diácono ou a congregação nada mais são do que auxiliares do pastor principal na missão e na visão, estando subordinados à sua autoridade.


Isso pode se aplicar tanto a uma congregação local que está dentro ou fora de uma denominação quanto a uma denominação inteira. Em geral, quando se trata de uma congregação local controlada pela autoridade de um pastor principal, este é chamado de sênior ou titular; quando se trata de uma denominação, geralmente o pastor principal é o pastor presidente. Contudo, essas nomenclaturas não são absolutamente necessárias. O pastor principal pode ser chamado de bispo, apóstolo, missionário, patriarca etc. A teologia, a disciplina e a estrutura dos demais cargos dentro da igreja, que são auxiliares do pastor principal, também podem variar de acordo com a visão do pastor que ocupa o cargo naquele momento. Não é um elemento essencial do modelo, mas, no Brasil, especificamente, é muito comum que a família do pastor principal ocupe os cargos mais importantes e que algum de seus descendentes se torne seu sucessor ou sua sucessora.


A base bíblica é o exemplo de liderança estabelecido por Moisés no deserto. Assim como Moisés era o líder escolhido por Deus para guiar o povo no deserto (Êxodo 3:10), o pastor principal é o escolhido por Deus para liderar aquela igreja ou denominação. Assim como Moisés recebia diretamente de Deus as ordens que deveria transmitir ao povo (Êxodo 33:11), o pastor principal recebe a visão para a igreja. Se o pastor principal não tiver esse tipo de autonomia, ele estará exposto a se tornar um mercenário, alguém que, em vez de obedecer às ordens de Deus, tentará agradar aos homens, seja o presbitério ou a congregação. No Novo Testamento, pode-se citar as cartas enviadas por Cristo ao anjo de cada uma das sete igrejas da Ásia (Apocalipse 2–3). Nestes textos, o anjo seria o pastor principal de cada igreja, responsável, diante de Deus, pela vida espiritual daquela congregação e, portanto, com autoridade sobre ela.


A maior parte das igrejas não denominacionais, das Assembleias de Deus, das igrejas do Evangelho Quadrangular e das igrejas pentecostais adotam esse modelo.


Avaliação


Todos os proponentes desses modelos conseguem achar, nas Escrituras, algo que exemplifica o que estão dizendo. Contudo, as passagens que parecem favorecer o episcopalismo também se encontram na Bíblia dos que defendem o congregacionalismo, e vice-versa.


O modelo verdadeiramente bíblico deve levar em conta todos os textos e lê-los de tal maneira que não se tornem repugnantes uns aos outros. Isto é, deve haver uma interpretação dos textos bíblicos que dê igual valor a todos eles, sem desconsiderar ou minimizar o que um diz para favorecer o outro. Tomemos como exemplo os textos bíblicos que tratam da disciplina de membros que caíram em pecado e não se arrependeram. O texto principal deve ser aquele registrado no Evangelho, no qual Jesus instrui os apóstolos sobre o procedimento. Nesse texto, Jesus diz que, depois de conversar com o pecador impenitente sozinho e com duas ou três testemunhas, ele deve ser levado à igreja e, somente depois de se negar a se arrepender diante da igreja, poderá ser de fato excluído. Esse é o principal texto usado a favor do congregacionalismo, e é possível perceber por quê.


No entanto, os textos que falam de apóstolos como Pedro e Paulo tomando decisões a respeito da disciplina desses mesmos membros pecadores com autoridade final são minimizados pelos congregacionalistas como algo que os apóstolos podiam fazer por serem apóstolos. Com a morte do último apóstolo, isso não teria mais importância, pois esse tipo de autoridade não teria sido transmitida a ninguém, a não ser à congregação. Ocorre que aquela ordem de Jesus, conforme em Mateus 18, foi dirigida diretamente aos apóstolos. Cristo vincula os apóstolos à obediência daquela ordem dada no Evangelho. Não podemos pensar que Pedro ou Paulo estivessem pecando contra Cristo ao desobedecer uma ordem direta do Mestre, pulando todo o procedimento estabelecido pelo Senhor e decidindo sozinhos sobre a disciplina de um irmão impenitente.


No entanto, se a interpretação congregacional estiver correta, ela implica pressupor que Pedro e Paulo desobedeceram a Jesus ao agir desse modo. Melhor é harmonizar os textos para entender que Pedro e Paulo agiam como representantes da igreja e, por essa razão, podiam decidir, como Pedro decidiu sobre Ananias, que ele estava excluído do corpo de Cristo. O fato de Pedro ter agido dessa forma não foi uma desobediência à ordem de Cristo, tanto que o Espírito Santo confirmou a decisão do apóstolo ao aplicar sobre Ananias a pena capital. Entendendo as coisas assim, podemos perceber que há valor na interpretação congregacional e há valor na interpretação episcopal, e que ambas não precisam ser excludentes uma da outra.


A ideia de que existem dois tipos de ministros da palavra – os bispos e os presbíteros –, sendo que estes seriam inferiores àqueles, é muito difícil de ser provada biblicamente. Haverá de ser feito algum tipo de apelo à tradição extrabíblica para demonstrar essa proposição. Mais difícil ainda será comprovar que apenas os bispos são realmente sucessores dos apóstolos.


No entanto, não é difícil entrever, nas Escrituras, que alguns ministros da palavra eventualmente poderiam ter uma posição de destaque e exercer funções específicas em nome dos demais presbíteros, assim como os presbíteros agem em nome da igreja. Assim, aqueles exemplos que às vezes são utilizados para fortalecer o argumento episcopal, embora não consigam provar o modelo, ainda assim são úteis para demonstrar uma reivindicação mais modesta: Timóteo e Tito realmente parecem ter um papel de destaque na instituição de presbíteros nas igrejas de Éfeso e Creta; Pedro realmente parece ter tido uma voz importante e de destaque na igreja de Jerusalém por pelo menos um tempo; depois, Tiago parece ter exercido esse mesmo destaque; e Paulo, nas igrejas que plantou – e até em algumas que não plantou, como a igreja de Roma. Não é totalmente fora de propósito a ideia de que o anjo da igreja de Éfeso ou o anjo da igreja de Esmirna seja uma figura de linguagem para se referir a um bispo ou presbítero destacado naquela igreja para uma posição de supervisão ou algo parecido. Isso nos daria um modelo que seria algo como uma mistura entre o episcopalismo e o presbiterianismo, com toques de congregacionalismo. Poderíamos chamá-lo de episcopalismo conciliar. Não seria algo inédito na história da igreja pós-apostólica. Existem igrejas que são governadas por modelos que, em linhas gerais, exemplificariam aquilo de que estamos falando – algumas igrejas luteranas, metodistas e até mesmo algumas presbiterianas.


No nível da igreja local, a igreja seria governada por uma pluralidade de pastores, sendo que um deles preside sobre os demais, mas lhes presta contas e não pode tomar decisões importantes sem a participação deles. Não é o mesmo que o modelo Moisés, pois, neste caso, o pastor que preside presta contas e precisa do consentimento dos demais pastores para tomar decisões importantes. Ele não está acima deles; seria algo como um “primeiro entre iguais.”


O mesmo princípio seria multiplicado e elevado para abarcar uma denominação. Ela poderia ter um presidente, mas ele seria o primeiro entre iguais, ou poderia haver uma junta presidencial. Decisões mais importantes precisariam ser tomadas pelo colegiado de todos os pastores da denominação, enquanto outras, muito importantes, mas não tão essenciais assim, poderiam ser tomadas por juntas ou comissões eleitas para isso; as demais decisões poderiam ser tomadas pelo presidente ou pela junta presidencial. Seguindo os exemplos que temos nas Escrituras, poderíamos estabelecer que decisões relativas à doutrina teriam de ser tomadas pelo colegiado de todos os pastores em concílio, assim como ocorreu em Jerusalém (Atos 15). Decisões a respeito da disciplina de pastores seriam tomadas por uma junta ou comissão de pastores, estabelecida para investigar e decidir sobre o assunto, como ocorreu com Pedro no caso da visita à casa de Cornélio (Atos 10). As demais decisões administrativas poderiam ser tomadas pelos presidentes.


O que precisamos evitar


De todos os modelos propostos, o que parece ser mais biblicamente frágil é o modelo Moisés. Se algum modelo de governo de igreja praticado pelos protestantes dá aos católicos o direito de dizer que nós multiplicamos o número de papas, esse é o modelo Moisés. A ideia de que um pastor na igreja tenha a mesma autoridade que Moisés tinha no deserto é tão despropositada que é difícil saber por onde começar a refutação.


Moisés é um tipo de Cristo. Cristo é quem nos tirou do Egito e nos conduz à terra prometida; é quem nos guia no deserto; é o Maná que desceu do céu, a pedra de onde sai água para matar a sede do povo; é o sumo sacerdote, o sacrifício, o templo, o altar; é o único cabeça da igreja universal. Nesse sentido, nosso Senhor não tem vigários. Ele é o único verdadeiro pastor, o Bom Pastor que deu a vida por suas ovelhas. Todos os outros pastores estão sujeitos à autoridade final, suprema e soberana de Cristo. É Cristo que ouve o Pai e nos revela as coisas que viu no céu, e é Ele que supre a igreja com a missão, estrutura, ordens e instituições. Nenhum pastor, por mais principal que seja, será mais do que o nosso Príncipe da Paz.


O modelo Moisés pode servir bem a uma cultura consumista, que enxerga na igreja uma espécie de mercearia espiritual e no pastor um prestador de serviços, julgando a qualidade de um pastor por sua competência administrativa e habilidades homiléticas – e não por seu caráter e retidão moral e espiritual –, e avaliando a qualidade de uma igreja por sua estrutura física e pelos programas oferecidos aos seus frequentadores. Contudo, é o modelo menos bíblico e o mais inclinado a gerar abusos e divisões.


Um único homem que não seja o antítipo legítimo de Moisés ou dos apóstolos não pode acreditar que sozinho tomará todas as decisões corretas, nem que ele é o único responsável pelo bem espiritual da igreja perante Deus.


A ideia de Chuck Smith de que um pastor que precisa se submeter a alguém tende a se tornar um mercenário não parece levar em consideração que esse pastor também tem, dentro de si, algo chamado pecado original. Se ele não tiver que prestar contas a ninguém, é bem mais provável que, em vez de se tornar um livre pregador da Palavra de Deus, se incline com mais facilidade às tendências pecaminosas que já possui, sem que haja alguém para pará-lo, fazê-lo refletir e se arrepender. Tampouco leva em consideração o fato de que, se for verdade que ter que se submeter à prestação de contas e à decisão colegiada com outras pessoas torna alguém mercenário, todos os supostos auxiliares do pastor principal serão nada além de mercenários – pessoas que não estão dispostas a falar a verdade por pensar que, assim, estarão em rebeldia contra a autoridade do pastor sênior.


Conflitos surgirão na igreja. Isso foi profetizado, e os apóstolos disseram que, de fato, isso é necessário (1Co 11.18-19). O que a igreja precisa é ter clareza sobre quais métodos serão usados para resolver os conflitos. No modelo Moisés, não existe solução para conflitos, senão a divisão ou a repressão. Se um pastor principal comete um erro e gera um conflito, as pessoas que estão abaixo dele não têm opção, a não ser sair da igreja ou se submeter àquele abuso.


Nenhum modelo é perfeito. Podemos pensar nas divisões que ocorreram em igrejas episcopais, presbiterianas ou congregacionais, mas nada se compara à quantidade avassaladora de divisões que ocorrem no movimento pentecostal. E nos parece que a razão disso não está na doutrina pentecostal em si, mas no modelo de governo adotado pelas igrejas pentecostais, especificamente no Brasil.


Pensemos, por exemplo, na Igreja Presbiteriana do Brasil. Ela já teve divisões – a mais famosa de todas foi a que gerou a Igreja Presbiteriana Independente –, mas não conseguimos fazer uma lista muito longa de igrejas que se dividiram da Igreja Presbiteriana no Brasil. Isso porque o modelo presbiteriano de governo de igreja prevê formas de resolução de conflitos. Há formas de dialogar e resolver que não envolvem a saída da igreja e a formação de uma nova congregação ou denominação. O mesmo ocorre com a igreja batista. Sabemos que há divisões na igreja batista, mas o modelo congregacional de governo dessa igreja oferece aos seus membros formas de resolver os conflitos que não envolvem divisões. Em muitos casos, uma nova congregação precisa ser formada, mas não uma nova denominação.


Quando um conflito surge, formas de mediação são opções oferecidas às partes envolvidas que não implicam novas divisões. Isso, no mínimo, diminui a quantidade de divisões. Mas, no modelo Moisés, tais opções não existem, o que aumenta o número de divisões. Tanto é que, nas igrejas da Assembleia de Deus dos Estados Unidos, não se observa nada parecido com a quantidade de divisões existentes nas igrejas da Assembleia de Deus do Brasil. Doutrinariamente, as igrejas são iguais, mas a diferença é que, nos Estados Unidos, o modelo de governo é o congregacional, enquanto no Brasil ele é o modelo Moisés.


Mesmo que possamos encontrar problemas nos três modelos tradicionais utilizados pelos protestantes para se organizar coletivamente como igreja, nunca poderemos achar algo tão grave e problemático quanto o que se observa no modelo moderno, conhecido como modelo Moisés.


Cremos que dentre os três modelos clássicos, os modelos presbiteriano e episcopal são os que têm a base bíblica mais forte. Por isso pensamos que o modelo episcopal conciliar pode ser ainda mais bíblico. Mas compreendemos o fato que pode ser difícil chegar a um acordo amplo a respeito deste assunto entre todos os cristãos. No entanto pensamos que, se não é possível chegar a um consenso sobre qual modelo é o mais bíblico, podemos, contudo, concordar que o modelo Moisés é inadequado.



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