Excerto do Livro "Mulheres e Ministério: Perspectiva Bíblica"

Parte 1: A Bíblia é a Palavra de Deus

As Escrituras Sagradas são a Palavra de Deus. Elas não são apenas o registro histórico da vida do povo de Deus; são o registro infalível da própria Palavra de Deus. Isso implica que o que a Bíblia ensina, Deus ensina. As histórias que a Bíblia conta, Deus conta. As verdades que a Bíblia afirma, Deus afirma: "Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra." (2Tm 3.16-17).

Sabemos que a Bíblia é a Palavra de Deus porque o nosso Senhor Jesus Cristo assim nos ensinou. O Senhor Jesus tinha a Bíblia em alta estima. Ele disse, sobre o Antigo Testamento: "Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido." (Mt 5.18). Também confiamos no Novo Testamento como Palavra de Deus por causa da promessa de Jesus aos seus apóstolos: "Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito." (Jo 14.26).

De fato, os apóstolos consideravam que receberam a promessa, pois ensinavam com autoridade, como quem realmente havia recebido uma revelação da parte de Deus: "E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações." (At 2.42). Note como neste texto o ensino bíblico é chamado de doutrina dos apóstolos, isto é, eles ensinavam com autoridade, como profetas de Deus, não como meros professores. 

São Pedro deixou claro que suas palavras não eram fantasiosas, mas um testemunho autorizado daquilo que ele e os demais apóstolos haviam experimentado com Jesus: "Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade." (2Pe 1.16). O mesmo apóstolo tratou os escritos de São Paulo como Escritura Sagrada, colocando esses escritos lado a lado com o Antigo Testamento: "E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição" (2Pe 3.15-16). Note aqui, como São Pedro chama o AT de “outras Escrituras”: outras além do que? Outras além das Escrituras de Paulo.

O apóstolo São Paulo, por sua vez, também entendia que aquilo que ele ensinava era realmente o que Jesus ensinava e que o Espírito Santo estava sobre ele para que suas palavras fossem as palavras de Deus: "As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais." (1Co 2.13). Na verdade, São Paulo tinha tal confiança de que estava agindo sob a direção de Deus que queria que a igreja imitasse o seu comportamento: "Sede meus imitadores, como também eu de Cristo." (1Co 11.1).

Por ser a Palavra de Deus escrita para todos os homens, a Bíblia também não está sujeita a interpretações particulares: "Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação." (2Pe 1.20). Isso implica naquele princípio de interpretação bíblica importantíssimo, que é o de que devemos usar a própria Bíblia para interpretar a Bíblia.

O Espírito Santo é o inspirador das Escrituras e, por isso, é também o seu melhor intérprete. Ele deixou na própria Escritura muitos elementos claros que são norteadores da interpretação da Palavra de Deus: "Mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir." (Jo 16.13).

Além disso, sendo a Bíblia a Palavra de Deus, ela é um livro eminentemente espiritual. O apóstolo São Paulo nos explica que, por essa razão, são os espirituais que conseguirão melhor compreender as verdades da Escritura: "Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido." (1Co 2.14-15). Mas os espirituais são aqueles que receberam vida do Espírito Santo. Portanto, um cristão cheio do Espírito Santo, com a sua Bíblia na mão e disposto a entender e estudar a Santa Palavra de Deus com o objetivo de obedecê-la, tem muitas razões para acreditar que conseguirá.

Isso de modo algum significa que a Bíblia é um livro de fácil compreensão. Claramente, por ser a Palavra de Deus, a Bíblia está repleta de coisas profundíssimas, além de alguns mistérios e verdades de difícil compreensão. É claro que o Deus que criou todo o universo e que controla e direciona toda a história humana, o Ser Infinito, será também grande demais para ser completamente compreendido por suas criaturas, por mais sábias que elas sejam: "Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos!" (Rm 11.33). Até mesmo os santos anjos no céu estão maravilhados eternamente com a glória e a bondade de Deus: “Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas; com duas cobriam os seus rostos, e com duas cobriam os seus pés, e com duas voavam.E clamavam uns aos outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória.” (Is 6.2,3) Por que razão um ser humano que, além de todas as suas limitações naturais, ainda possui a limitação do pecado e da queda, deveria querer compreender completamente o Todo-Poderoso? As Escrituras, como revelação de Deus, refletem até certo ponto essa mesma grandeza.

Contudo, não podemos nos esquecer de que elas são a revelação, e não a ocultação de Deus. Isso implica dizer que, embora não possamos compreender completamente toda a sabedoria, glória e poder do nosso Deus, ainda assim podemos saber o suficiente para amá-lo, adorá-lo e viver de tal modo que o agrade: "As coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei." (Dt 29.29).

Dessa forma, temos nas Escrituras uma revelação confiável de Deus e podemos acreditar que tudo aquilo que ela nos ensina a respeito de quem Deus é e do que Ele quer de nós é a mais pura verdade e uma base sólida para construir uma vida realmente santa e, portanto, verdadeiramente abençoada.

No entanto, temos que compreender que as Escrituras não tocam apenas as questões pessoais de cada crente, isto é, sua salvação pessoal e santificação individual. As Escrituras são a Palavra de Deus sobre tudo aquilo que Deus quis falar. Em qualquer assunto sobre o qual a Bíblia ensina, ela tem autoridade final, de tal modo que as Escrituras falam também sobre coisas como a organização da família, da igreja e da sociedade.

Em outras palavras, as Escrituras têm autoridade final em todos os assuntos que tocam, e elas tocam muitos assuntos, especialmente no que concerne à igreja. Podemos realmente considerar que a ata de fundação e os estatutos da Igreja de Cristo estão nas Santas Escrituras: "família de Deus; edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina." (Ef 2.19-20). Note como, aqui, São Paulo explica que a igreja está construída sobre o fundamento que são os ensinos dos apóstolos e dos profetas, isto é, da Bíblia.

Por este motivo, além de todos os outros que possamos ter, não podemos procurar em nenhum outro lugar além das Santas Escrituras a resposta final para as questões que serão tratadas neste livro. A Bíblia é a autoridade final sobre esse assunto, e nenhuma opinião humana ou conjectura cultural de um determinado tempo ou lugar, mesmo que seja o tempo e lugar em que nós vivemos, pode determinar algo contrário às Escrituras. A igreja, como o corpo de Cristo na Terra, tem o dever, diante de seu Senhor, de se pautar única e exclusivamente pelo que Sua Palavra determina, sob pena de se tornar uma instituição mundana e de procurar os seus próprios interesses ao invés dos interesses de seu Mestre, Noivo e Senhor.

Por tudo isso, ainda que o nosso assunto toque questões que estão sendo debatidas neste exato momento em nossa cultura, temos que resistir à tentação de sermos enviesados pela nossa preferência pessoal e cerrarmos os olhos para aquilo que as Escrituras ensinam muito claramente. Também devemos tomar cuidado para não sermos injustos com o texto bíblico, forçando-o a dizer aquilo que ele, claramente, não disse.

O feminismo, o conflito entre os sexos e a guerra contra o masculino, embora possam ser assuntos importantes, não podem guiar nossa interpretação das Escrituras.

Digo isso não apenas pensando na questão das nossas preferências — daquilo que gostaríamos que o texto dissesse —, mas também das nossas oposições, ou seja, daquilo que gostaríamos que o texto não dissesse. É infeliz que, muitas vezes, uma posição bíblica válida e saudável seja dispensada porque parece ser favorável demais a uma posição que consideramos contrária à nossa opinião.

Então, alguém que tem uma propensão feminista pode desconsiderar uma verdade bíblica porque pensa que seria machismo. Ou o contrário: alguém que tende a ser contra o feminismo pode dispensar algo importante da Bíblia porque acredita que “só um feminista interpretaria a Bíblia desse jeito”.

Esse tipo de viés invadiu a vida da igreja e tem tornado o estudo humilde e obediente das Escrituras quase uma declaração de guerra em vários lugares. Alguns textos bíblicos são proibidos em púlpitos porque seriam ofensivos às pessoas que tomaram o poder naquela congregação ou denominação. Isso não é nada bom. Todo o conselho de Deus tem de ser anunciado, sem restrições (At 20.27).

Temos de ler a Escritura com o viés do servo de Deus, isto é, com o desejo de ser fiel ao Senhor e à Sua Palavra, submetendo nossa preferência à verdade da Escritura, por mais que isso seja incômodo ou até mesmo doloroso. A Palavra de nosso Senhor Jesus tem de reinar suprema.

Não pode haver versículos proibidos na igreja. O púlpito tem de ser o lugar onde a Palavra de Deus reina soberana, de onde a verdade flui como um rio, porque a verdade liberta e cura (Jo 8.32). E é isso que queremos ver nas nossas igrejas: o rio de Deus fluindo poderosamente, trazendo vida e cura, alimentando as árvores do jardim de Deus, limpando o coração do povo de Deus e sarando suas feridas (Sl 1.2,3).

O nosso esforço aqui é o de deixar que a Palavra de Deus diga o que Deus quer dizer. Nosso papel é o de servos, não de senhores; discípulos, não mestres. Jesus é o Senhor de todos e o Mestre de todos (Mt 23.8). Nosso coração tem de se dobrar diante d'Ele.

Por causa dos conflitos culturais e da transigência da igreja com os tabus e as limitações que a cultura atual impõe a todos, muitos pastores estão amedrontados e calados. Servos de Deus que, por medo de ferir lideranças ou de serem culpados pelos outros de supostamente “causar escândalos”, se calaram a respeito daquilo que leem em suas Bíblias. Isso também não é bom. Nenhum pastor deveria ter medo de pregar nenhuma parte da Bíblia, antes, pelo contrário, pregá-las com ousadia e constantemente (2Tm 4.2).

O nosso compromisso com as Escrituras Sagradas tem de superar qualquer outra lealdade que tenhamos. Todo pastor, ao ser ordenado, faz um voto de ser fiel à Palavra de Deus e pregá-la com coragem. Isso inclui tudo o que a Bíblia diz sobre todos os assuntos que ela toca. Não pode excluir o assunto de que aqui tratamos.

Esse compromisso do servo de Deus com a Sua Palavra tem de ser maior e mais forte do que o compromisso que se tem com as decisões de pastores maiores na hierarquia ou de convenções humanas. Um pastor tem de se esforçar para entender o que a Escritura diz sobre um assunto, e, quando conseguir entender, tem de estar disposto a contrariar o mundo todo, se for necessário (1Co 4.1-2).

É isso que os apóstolos fizeram (At 4.19-20), é isso que Atanásio fez, é isso que os reformadores fizeram. Lutero enfrentou leões ferozes e muitas vezes se sentiu sozinho, mas nem por isso deixou de enfrentar. Ele não começou pensando que teria grande oposição. Por algum tempo, Lutero ensinou a doutrina da justificação pela fé como se ela fosse a doutrina oficial da Igreja de Roma. Quando ele escreveu as suas famosas 95 teses, não pensava que estava denunciando o Papa, mas sim que estava denunciando ao Papa os vendedores de indulgências. Que surpresa e decepção não foi para o reformador quando descobriu que o Papa concordava com os mercadores da fé e que eles eram, de fato, seus emissários! Ele poderia pensar que, já que aquilo que ele tinha lido nas Escrituras era contrário ao que se pregava na época, talvez fosse melhor deixar de pregar sobre Romanos ou Gálatas, por exemplo. No entanto, ele continuou pregando. Quase morreu por isso, mas no fim fez a reforma.

É claro que o assunto de que ele tratava era algo essencial e importantíssimo: como alguém recebe a salvação adquirida por Cristo. E, talvez, muitos pastores diriam que, por um assunto tão importante assim, eles se arriscariam a contradizer a cultura. Mas, por assuntos menores ou “não essenciais”, não valeria a pena se arriscar.

No entanto, não podemos nos esconder atrás de uma falsa sabedoria, dizendo que, “já que há polêmica na igreja a respeito deste assunto, podemos evitá-lo”. Se o assunto é bíblico, tem de ser tratado. Se existe, mesmo que seja um versículo na Bíblia a respeito de um assunto, ele merece mais atenção do que todos os livros e opiniões dos homens sobre o mesmo assunto. E, ainda que possamos estar errados em nossa interpretação, temos de ter o coração de servo e a disposição para obedecer tudo o que a Palavra de Deus ensina.

Meu esforço neste livreto é o esforço de um irmão em Cristo e um servo de Deus, tentando olhar para as Escrituras com o respeito que elas merecem, comparando cada argumento com textos bíblicos considerados em seus próprios contextos e dispondo o coração para obedecer ao que quer que as Escrituras estejam ensinando.

Esta pequena defesa nasceu de um pastor angustiado pela questão, desejoso de pesar todos os argumentos, quer de um lado, quer de outro, colocar todos diante da Escritura e perguntar ao Espírito Santo o que realmente Ele disse em Sua Palavra. 

A ordem cronológica como eu realmente conduzi este estudo foi a seguinte: primeiro, estudei todos os argumentos favoráveis ao pastorado feminino que pude encontrar. Tentei defender a tese biblicamente e melhorar os argumentos onde achei possível. Em seguida testei cada um deles de acordo com as Escrituras para ver se permaneceriam. Descobri que eles não eram a melhor exposição dos dados bíblicos. Continuei estudando o texto bíblico para formar um caso positivo, do que a Escritura realmente ensina. Pensei nas consequências que o erro de ordenar mulheres poderia causar na igreja. Estudei alguns exemplos históricos disso. 

Será isto ofensivo demais? Será isto “polêmica desnecessária”? Será isto o fruto de um espírito faccioso? Desejo profundamente que não. Mas estas perguntas podem ser feitas aos dois lados do debate. Meu desejo é que este estudo seja simplesmente uma meditação bíblica válida e fiel ao testemunho do Espírito Santo, e que seja recebido pelos irmãos de ambos os lados do debate com a mesma disposição de espírito: a disposição de servo de Cristo.

Este é o capítulo 1 do livro "Mulheres e Ministério: Perspectiva Bíblica". Para adquirir o livro e continuar lendo clique aqui.

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