O Batismo - William Burt Pope

 POPE, William Burt. A Compendium of Christian Theology. Londres: 1875. Tradução livre. p. 660-665.


O Batismo

O batismo é uma ordenança estabelecida por nosso Senhor como o rito de iniciação no novo pacto da graça, sendo o sinal e selo das bênçãos desse pacto conferidas àqueles que, por meio dele, professam aceitar sua única condição: a fé em Jesus Cristo, com suas obrigações. É o sacramento da união com Cristo e da membresia na igreja de Cristo, sendo o sinal externo e visível do selo do Espírito Santo.


I. A Doutrina Bíblica do Batismo


As Escrituras fornecem uma história preliminar desse rito, ligado ao Antigo Pacto e transformado no Novo. Elas oferecem um relato claro de sua instituição e prática, definindo seu significado e relação com a economia da graça. Esses temas correspondem, de maneira geral, aos ensinos do Antigo Testamento, dos Evangelhos, dos Atos dos Apóstolos e das Epístolas.


1. O Antigo Testamento e o Batismo


No Antigo Testamento, o rito de circuncisão era o representante do batismo, sendo o rito de admissão no antigo pacto da graça, estabelecido primeiramente com Abraão para todas as nações em sua Semente, o Cristo, e renovado por Moisés com o povo do pacto. Para Abraão, era o selo da justiça da fé a ser revelada em Cristo. Em Moisés, tornou-se o símbolo da santificação do aumento natural e o selo de participação em privilégios externos e limitados. Em ambos os casos, foi ordenado apenas até que a Semente viesse (Gálatas 3:19). O batismo tomou seu lugar como sinal de um nascimento e aumento espiritual, e selo de privilégios internos, universais e permanentes.


Havia também tipos históricos, como o Dilúvio e a salvação por suas águas (1 Pedro 3:21), e a passagem pelo Mar Vermelho (1 Coríntios 10:2). Além disso, havia tipos rituais, como as lavagens cerimoniais da antiga lei (Êxodo 19). Os profetas predisseram a efusão do Espírito Santo, da qual o batismo cristão seria o símbolo, sob a imagem de águas purificadoras (Zacarias 13:1; Ezequiel 36:25), derramadas, sempre fluindo e aspergidas sobre a alma.


O antigo batismo de prosélitos pagãos provavelmente não tinha base no Antigo Testamento além da prática geral de lavagem antes de oferecer sacrifícios a Deus. No entanto, autoridades rabínicas indicam que, após o cativeiro, todo prosélito era circuncidado e batizado, incluindo mulheres e crianças de sua casa. Isso explica a familiaridade geral com o rito presumida nos Evangelhos e esclarece o batismo de João Batista e o batismo dos discípulos por Jesus. Deve-se considerar também na interpretação das palavras de Pedro no Dia de Pentecostes: “A promessa é para vós e para vossos filhos” (Atos 2:39).


2. A Instituição do Batismo Cristão


A instituição do batismo cristão tem uma história gradual, abrangendo os batismos preliminares dos Evangelhos, a instituição do Salvador e a prática na Igreja do Novo Testamento.


a) O Batismo de João


O batismo de João tinha um significado distinto, sendo o batismo do arrependimento como preparação para Cristo e o Novo Pacto. Era o rito de transição do Antigo para o Novo Testamento. Como parte do Antigo, Jesus, estando sob a lei, submeteu-se a ele. Como parte do Novo, Ele não o recebeu; seu batismo no Novo Testamento foi a efusão do Espírito Santo sobre Sua natureza humana, restaurando ao homem, por meio d’Ele, o Espírito perdido pela Queda. O ato preliminar de Jesus de batizar, administrado por Seus discípulos, era, em parte, uma continuação do batismo de João, em parte uma adaptação ao uso posterior de batizar prosélitos e, em parte, uma preparação para Sua ordenança final.


b) A Instituição do Batismo Cristão


A instituição do batismo cristão foi estabelecida por uma ordem clara e definitiva. Ela foi preparada em atos, como vimos, e, sem dúvida, em palavras durante os Quarenta Dias. Assim, a fórmula foi compreendida quando dada em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Os batizados deveriam ser dedicados pelo homem e consagrados pelo Espírito à posse, serviço e graça redentora da Trindade mediadora. Ambos os sacramentos foram instituídos por Cristo para serem plenamente interpretados pelo Espírito Santo. A Ceia precedeu a morte que ela comemorava; o batismo precedeu o Pentecostes, que foi seu cumprimento. Esse dia declarou seu significado: o único Nome Trino, as várias bênçãos das Pessoas nesse Nome, sua substituição pela circuncisão como ordenado para todas as nações e seu caráter de pacto, selando os benefícios do cristão a todos que creem e obedecem aos mandamentos.


c) A Prática na Igreja Primitiva


A partir do Dia de Pentecostes, o batismo é observado como uma ordenança indispensável. Não há registro de conversão sem o rito: “foram batizados, tanto homens como mulheres” (Atos 8:12). A fórmula completa não aparece; o batismo era em nome de Jesus (Atos 8:16; 10:48; Romanos 6:3), representando a Trindade. Em alguns casos, o batismo foi complementado pela imposição das mãos apostólicas e o dom do Espírito Santo (Atos 8:17); em outros, seguiu esse dom (Atos 10:47); e, em um caso, foi uma cerimônia infrutífera, como no caso de Simão, o Mago (Atos 8:13). Sempre foi administrado por oficiais da igreja: aqueles que pregavam batizavam seus convertidos. Paulo expressa satisfação por ter batizado poucos em Corinto, tanto por zelo pelo nome de Cristo quanto por sua maior obrigação de pregar o Evangelho (1 Coríntios 1:14-16). As famílias de crentes eram batizadas (Atos 16:15; 1 Coríntios 1:16), incluindo, obviamente, seus filhos, cujo batismo não é mencionado porque implícito na bênção de Jesus sobre eles (Mateus 19:14). O fato de serem batizados é evidente, pois o batismo substituiu a circuncisão, e as crianças são tratadas como membros da igreja cristã (Efésios 6:1).


II. Ensino Apostólico sobre o Batismo


O ensino apostólico posterior sobre o batismo é abundante e claro, destacando sua relação com a circuncisão e seu papel como sinal e selo do pacto cristão.


1. Batismo e Circuncisão


As referências mostram que o batismo substituiu a circuncisão como sinal e selo do pacto cristão (Colossenses 2:10-12). A antiga circuncisão foi abolida; se admitida, era por conveniência ou como costume nacional, não como rito de um pacto imperfeito. Paulo afirma: “Vós estais completos n’Ele... em quem também fostes circuncidados com a circuncisão não feita por mãos, ao despojar o corpo dos pecados da carne pela circuncisão de Cristo: sepultados com Ele no batismo” (Colossenses 2:10-12). Não há mais circuncisão, exceto a espiritual, e a morte do pecado, simbolizada pelo antigo rito, é agora representada pelo novo. O batismo é o sinal e selo de um pacto melhor.


a) Bênçãos do Pacto Cristão


Todas as bênçãos do pacto cristão são resumidas na Promessa feita a Abraão, que é Cristo, a Semente, e a bênção do Espírito Santo. “Todos quantos fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo” (Gálatas 3:27), indicando a relação do batismo com a recepção de Cristo e a união com Ele. “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado... e recebereis o dom do Espírito Santo” (Atos 2:38), mostrando sua relação com a graça do Espírito.


b) Bênçãos Específicas


O batismo exibe e garante bênçãos específicas ao crente:


Justificação: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado... para remissão dos pecados” (Atos 2:38); “Sê batizado, e lava os teus pecados” (Atos 22:16).


Filiação Cristã: Como adoção e regeneração, “todos vós sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus; porque todos quantos fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo” (Gálatas 3:26-27). O batismo está mais frequentemente ligado à regeneração, simbolizando a morte para o pecado e a ressurreição para a santidade (Colossenses 2:12; Romanos 6:3-4).


Santificação: “Pelo Espírito fomos todos batizados em um corpo” (1 Coríntios 12:13), referindo-se à igreja como o corpo santificado do Senhor, purificado “pelo lavar da água pela Palavra” (Efésios 5:26). Pedro chama o batismo de antítipo da salvação da arca, que “agora também nos salva” (1 Pedro 3:21), unindo justificação e santificação.


2. Sinal e Selo do Pacto


Em todas as passagens, o batismo é identificado com as bênçãos que significa, de modo que não pode ser considerado apenas um sinal ritual. “Um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Efésios 4:5) dá ao batismo um lugar proeminente, abrangendo todos os privilégios do pacto. Ele não é o único instrumento de Deus ou a única condição do homem, mas é invariavelmente o selo da transação entre Deus e o crente na presença da Igreja. As bênçãos podem ser concedidas antes ou após o batismo, mas são seladas e garantidas ao crente em seu batismo, seja por aspersão, derramamento ou imersão, como sinal da descida do Espírito e da lavagem do pecado, e como selo da concessão de todas as bênçãos do Espírito ao crente que persevera na fé.


3. Caráter Universal do Batismo


O batismo tem um caráter universal nas epístolas, ampliando o significado do rito anterior e adaptando-o a uma economia mais católica. “Todos quantos fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:27-28). A circuncisão desaparece por sua própria natureza; o batismo, para todas as nações, homens, mulheres, adultos e crianças, toma seu lugar. A água flui para todo o mundo: “Eis aqui água” (Atos 8:36). Por meio disso, o Deus do pacto cristão asperge muitas nações (Isaías 52:15). Nada do que a circuncisão selava no antigo pacto se perde no novo. Assim, as crianças têm seus privilégios selados no batismo e são tratadas como membros da igreja em todas as epístolas.


Se perguntado qual é a bênção selada às crianças, a resposta é: tudo o que são capazes de receber. Como filhos de uma raça sob condenação, são justificados livremente pela graça por meio da redenção em Cristo Jesus (Romanos 3:24). Como filhos da ira pela linhagem de Adão, são enxertados em Cristo; seu batismo é o selo de sua adoção presente e a garantia de sua regeneração quando forem capazes. Impuros por natureza, são santificados pela consagração batismal a Deus: “Cristo as abençoou, sua impureza se foi, e agora vossos filhos são santos” (1 Coríntios 7:14). Para adultos, a fé pessoal e a aceitação consciente dos termos do pacto são essenciais. As crianças são incapazes disso, mas o Senhor é seu eterno Fiador. Ao dizer “dos tais é o reino dos céus” (Mateus 19:14), Ele as admitiu a todos os privilégios de Seu pacto, incluindo o dom do Espírito para remover a condenação da raça e proporcionar as influências preliminares de Sua salvação.


O batismo dos filhos de pais crentes é, portanto, um sinal da lavagem da culpa original e um selo de sua adoção na família de Deus; um sinal da regeneração que sua natureza necessita e um selo de sua concessão no tempo determinado por Deus.


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