Por que foi bom que João Wesley fosse expulso da Geórgia…

Quando João Wesley foi para a Geórgia, nos Estados Unidos, em sua juventude, seu desejo era se tornar um missionário para os índios nativos da região que futuramente se tornaria parte dos Estados Unidos. Ele era um ministro jovem, com pouca ou nenhuma experiência pastoral, mas com um grande desejo de fazer algo para Deus.


A Geórgia era uma das colônias da Inglaterra. E, infelizmente para o nosso herói, em vez de se tornar um grande missionário entre os índios, ele acabou atuando apenas entre os colonos. A colônia precisava de uma igreja e de um pastor — e ele era o melhor que havia disponível naquele momento.


Durante esse período em que atuou como pastor na colônia, algo não tão louvável ocorreu em sua vida. Ele parece ter se apaixonado pela filha de um colono importante e relativamente rico. Mas, por uma razão ou outra, o relacionamento não deu certo e eles não se casaram. Pouco tempo depois, a moça se casou com outro homem.


Ocorre que João Wesley continuou sendo o pastor dela e de seu marido. Em determinado momento, ele viu algo na vida dela que julgou merecer repreensão e lhe negou a Santa Ceia em um culto dominical.


Do ponto de vista de muitas pessoas, isso foi uma falha da parte daquele que, mais tarde, se tornaria um dos homens de Deus mais conhecidos da história. Muitos julgam que Wesley agiu não por real necessidade pastoral, mas por ciúmes.


De fato, o marido recém-casado da moça, assim como seu pai, pensaram da mesma forma. Por isso, iniciaram uma campanha de perseguição que acabou forçando João Wesley a fugir, discretamente, de volta para a Inglaterra, a fim de evitar consequências piores.


Interessantemente, até onde sabemos, João Wesley jamais admitiu publicamente qualquer desvio em sua conduta com relação a moça. E, na realidade, nunca poderemos saber o que estava em seu coração quando tomou a decisão de disciplinar aquela moça. O fato é que, por bons ou maus motivos, Wesley fez algo extremamente interessante e importante. E, do meu ponto de vista, parece que essa atitude revelou uma característica de personalidade que mais tarde permitiria que ele se tornasse aquilo que ainda não era: um verdadeiro pregador da Palavra de Deus e um pastor fiel.


O que me parece importante — e revelador — nessa história é que ele tenha sido capaz de, por ciúme ou por fidelidade, submeter à disciplina alguém que pertencia à classe alta e que tinha poder político e econômico para lhe causar problemas.


Se ele agiu apenas por ciúme, ou se inconscientemente começou a procurar falhas na vida dela justamente por não ter dado certo o romance entre os dois, ou ainda se, por algum tipo de mesquinhez, se deixou levar por um desejo carnal de ferir aqueles que ele sentia que o haviam ferido, então certamente o que ele fez foi reprovável. Não há como justificar a mesquinhez, a indignação e a maldade. E às vezes é bem possível que todas essas coisas horríveis se disfarcem no coração humano sob a aparência de sentimentos nobres, como o desejo de ver a disciplina bem aplicada na igreja.


Entretanto, mais à frente, quando ele se torna missionário em seu próprio país e começa a pregar para os trabalhadores das minas, os pobres, os destituídos e os desprezados, aquela antiga coragem reaparece — agora com um motivo mais nobre e uma justificativa mais clara aos olhos de todos. As perseguições e os desprezos que João Wesley sofreu não o impediram de fazer aquilo que acreditava ser certo, agora com os melhores motivos — assim como não o impediram de agir quando seus motivos eram, no mínimo, duvidosos.


Pelo menos é o que me parece, sendo eu apenas um amador nos assuntos da história de João Wesley. Que os especialistas me refutem.


O que me fez refletir sobre esse assunto foi justamente a instrução que Moisés deu aos líderes que estabeleceu em Israel quando estavam no deserto:


“Ouvi a causa entre vossos irmãos e julgai justamente entre o homem e seu irmão ou o estrangeiro que está com ele. Não sereis parciais no juízo; ouvireis tanto o pequeno como o grande; não temereis a face de ninguém, porque o juízo é de Deus. Porém a causa que vos for demasiadamente difícil fareis vir a mim, e eu a ouvirei.”

(Deuteronômio 1.16-17, ARA)


Diferentemente do padrão de liderança que encontramos hoje em dia na maioria das igrejas, os líderes estabelecidos por Moisés tinham como dever principal ouvir (não falar) e serem imparciais.


Era importante para Moisés que eles não tivessem medo de ninguém — justamente porque pessoas poderosas podem intimidar autoridades, e juízes tendem a ser mais lenientes com aqueles que podem beneficiá-los ou prejudicá-los de alguma forma fora dos tribunais.


Quando Moisés diz que os casos demasiadamente difíceis devem ser enviados a ele, não devemos pensar apenas em casos em que há dúvida sobre o significado exato da Lei ou sua aplicação específica. O contexto permite pensar que o que realmente estava em jogo aqui não era apenas uma questão intelectual, mas sim a segurança pessoal do juiz para permanecer imparcial no julgamento da causa. Se ele sentisse que uma das partes envolvidas era intimidante demais, ou muito mais poderosa do que ele e capaz de prejudicá-lo, o próprio juiz apelava a Moisés, como instância superior, porque Moisés não se deixaria intimidar por ninguém.


Obviamente, tudo isso tem sua aplicação mais direta à situação de Israel no deserto. No entanto, existe uma aplicação desses textos para todos os líderes, de todas as épocas e em todos os lugares — inclusive líderes políticos, como policiais, juízes, delegados, deputados, presidentes, prefeitos, governadores —, mas especialmente para pastores e diáconos na Igreja de Cristo Jesus.


Assim como os líderes instituídos por Deus, por meio de Moisés, no deserto, tinham de ser homens corajosos, que não se deixavam intimidar pelos poderosos, que eram imparciais e bons ouvintes, precisamos que os pastores e líderes nas igrejas sejam igualmente fiéis, atentos, imparciais em seus julgamentos e corajosos o suficiente para lidar com qualquer pessoa, em qualquer situação — não importa quão grande e poderosa ela seja.


Da mesma forma, também faz muito sentido que as igrejas se organizem em comunhões, e que líderes mais experientes e capazes sejam colocados em posições mais altas e proeminentes, para que possam ajudar os irmãos menos experientes e menos capacitados a enfrentar inimigos 

poderosos — muitas vezes intimidadores.

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